Realizações Culturais

“Tres poemas de Edir Meirelles,  traducidos por A. P. Alencart”

Edir Meirelles.
Foto de Jacqueline Alencart, en Salamanca, XV Encuentro de Poetas Iberoamericanos

Crear en Salamanca se complace en publicar tres poemas (inéditos en español) del poeta, cuentista y novelista Edir Meirelles (Pires do Rio, Gaiás, Brasil, 1939), actual vice-presidente de la Unión Brasileña de Escritores – sección Río de Janeiro, y también miembro del PEN Club de Brasil y de la Academia Carioca de Letras. Entre sus libros publicados están: Poemas contaminados; O velho Januário (cuentos); Madeira de dar em Doido (novela); Poemas telúricos; O feiticeiro da Vila (novela). Poema telúrico fue leído en portugués, en octubre pasado, en la Sala de la Palabra del Teatro Liceo, dentro de la programación del XV Encuentro de Poetas Iberoamericanos que organiza la Fundación Salamanca Ciudad de Cultura y Saberes.

POEMA TELÚRICO

Mis sueños son infinitos: trabajo

y salto con las hormigas;

esculpí granitos, tallé maderas

y saltando me embarré;

calbalgué caballos de arcilla

y al buey alado;

formé y comandé ejércitos poderosos,

me zambullí hondo de las raíces de la cultura,

fui al encuentro de mis antepasados,

conviví con Zumbi dos Palmares,

tuve charlas con Antonio Conselheiro,

luché al lado de Poti,

descubrí la increíble fuerza telúrica

de los héroes populares

peregriné en los pequeños bosques del reseco sertão,

libré combates serios y desiguales;

amé guerrilleras fogosas,

disparé metralla contra espantapájaros,

me codeé con los legendarios Lampião y María Bonita

recibí bendición del padre Cícero,

discutimos los caminos del hombre,

la moderna iglesia liberadora,

la cuestión agraria

soñé con la redención humana,

sus directrices y simientes,

en la cosecha de la caña de azúcar

comí restos de los temporeros,

acampé a lado de los sin tierra

y sentí el látigo de la represión.

También encontré tiempo para amar

y perpetuarme.

*  *  *

LA SAL DE LA VIDA

Amar, motivo de nuestra existencia.

Amar, amar con todas las fibras,

probando juntos la sal de la vida,

a cuentagotas en las gotas de la felicidad;

el amor que quiero es sueño,

eres el amor de cada día,

el amor del pan con matequilla,

el pan salado con mantequilla y sal,

el agua y la sal que se atraen

en el inmenso océano

de nuestras fluctuantes vidas.

Las olas que nos embelezan

son atracciones eternas,

el equilibrio electrolítico,

las hormonas de nuestros deseos

ardiendo la la hoguera de las células

que se renuevan y se rehacen.

¡Amor! Fuerza vital uniéndonos

hasta la consumación final

en la benéfica eternidad de los amantes,

allí donde las almas etéreas.

Mi corazón arde, pulsa y sin tregua

se debate las veinticuatro horas.

Duermo, sueño y me rehago

despierto, mientras él repite palpitante:

nací de amor, vivo de amor,

moriré de amor.

La sal de mi vida es amar

en el mar de nuestra vidas.

 *  *  *

ROMPIENDO CADENAS

Admiro a las aves

que tan libre vuelan

y reinan en la inmensidad

oigo el canto de los pájaros

y el llanto de los miserables…

por contra

el hombre sigue rastrero

despreciando la honestidad

dividido entre el ser y el no ser

entre el grito de libertad

y la sujeción a los tiranos

¡encadenado a viles intereses!

¿Dónde están los nuevos Castro Alves

Mahatmas Gandhi y Luther Kings?

virtud, moral

y palabra de honor

fueron prohibidas en el territorio nacional

restituyanlas

y con ellas rompan las cadenas

haciendo más solidario al hombre

 

oigo el canto de los pájaros

y el llanto de los miserables…

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✍ Posfácio do livro
50 POEMAS SELECIONADOS – VINTE ANOS DE POESIA”

DO HUMANO CHÃO

Tanussi Cardoso (*)

           O escritor EDIR MEIRELLES é dos mais profícuos criadores de nossa literatura: poeta, contista, romancista e ensaísta. Mas, fica difícil saber o que mais se apreciar nele, se o homem de letras ou o grande divulgador de nossa cultura, lutando sempre pelo respeito e dignidade do escritor brasileiro, à frente de diversas academias literárias, e de outras importantes entidades nacionais, como a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), o Pen Clube do Brasil, a União Brasileira de Escritores (UBE/RJ) e o Sindicato dos Escritores (SEERJ), essas duas últimas, já presididas por ele. Ou, ainda, se o eterno inconformista que habita dentro do homem/escritor, desde sua vida de menino-pés-no-chão, no município de Pires do Rio, em Goiás, até chegar à cidade grande, aos 15 anos, quando conheceu o sentimento poético-democrático de Castro Alves, cujo grito libertário de igualdade nunca o deixou. Essa presença forte e expressiva, de ativista e agitador cultural, talvez, seja a sua grande marca na nossa contemporaneidade.

Para comemorar 20 anos de poesia, o poeta fez uma seleção pessoal de seus poemas, reunindo-os nesse livro, dividindo-os em três partes: “Cálice radioativo”, “Tropeço histórico” e “Lavoura Onírica”.

Apesar de, em alguns pontos, tocar a lírica amorosa e sensual, utilizando-se, tantas vezes, de seu humor refinado, é a contestação político-social e o amor à terra natal que comandam esses “POEMAS SELECIONADOS”. Afinal, “de que vale um poema? ante a miséria e o abandono”.

O poeta destes “Poemas Selecionados” está profundamente ligado à sua terra e a todas as outras em que viveu e que forjaram o homem que é hoje, já que “viver o sertão / é ter o mundo nas mãos / ser o dono do sol / (relógio natural)”. Goiás, Brasília, Rio de Janeiro e as demais cidades por onde andou não são somente uma foto na parede: vibram, vivem, sangram, ainda, dentro do poeta – alma e carne. Praias e sertão, boemia, mulheres, amores, ruas e praças, sóis e luas, flores e cactos, animais e carcaças, comidas e fome, sede e risos, e toda a natureza que as emoldura, nada escapa à visão e memória desse poeta de couro forte. Leva em sua bagagem de viageiro o telúrico e o amor universal pelo homem. Canta a dor dos candangos de Brasília e a dor do sertanejo, dos vaqueiros e lavradores, mas, canta, junto, igualmente, as suas glórias. Eis seu autorretrato: “não sei ouvir estrelas / nem vivo no mundo da lua / tenho os pés na terra / firmes e solidários / com o povo no meio da rua”.

Porém, Edir Meirelles nunca se mostra panfletário ou vulgar. Sua poesia, tantas vezes, um brado às injustiças, como vemos, por exemplo, em “Cálice radioativo”, com sua ira diante da hecatombe do Césio-137 (“Pai! / afaste de mim este césio”), e da miséria triste e inesquecível acontecida com a população local, flui de tal maneira, cativante, que deixa de ser circunstancial, tal a sensibilidade e a verdade do que se lê.  O escritor sabe distinguir arte de discurso. Seus poemas ora são invadidos de esperança, ora soam amargurados, quase desesperados pelo sofrimento ao seu redor. Por isso, não soa estranha a constatação: o poeta não chora mágoas pessoais, chora a dor do outro. O que ele deseja é que todos possam entender a sua linguagem; entendê-lo. Daí, nada de hermetismos ou poemas cifrados para aplausos de críticos e intelectuais. Sob a aparência simples de seus poemas, objetivos, diretos, uma forte carga política o torna um dos maiores humanistas que conheço, e li. Poemas que não têm pudor em gritar, em hastear bandeiras, desde que sejam a favor do social, do povo. São testemunhos do desencanto e da indignação, o que me faz lembrar o saudoso e grande Moacyr Félix. Um texto vigoroso, de resistência, que quer o coletivo, pois ele acredita que a poesia, sendo uma das formas mais eficientes de expressão, pode tornar a vida menos complexa e mais justa.

Edir Meirelles crê, com certeza, no papel social do poeta. Pensa que a poesia deve representar o mundo e, de alguma forma, compreendê-lo. Uma poesia da vida e pela vida. Do homem da terra, do chão em que nasceu. Em seus versos ressoam o hálito, o tato, o coração, os sentidos físicos e emocionais de suas gentes. É denúncia, sim, mas não é panfleto. Encontramos em sua poesia, discursiva e questionadora, a angústia do homem indefeso, encontramos o medo e a coragem, encontramos um poeta com a voz de seu tempo, em seu canto solidário e ecológico. Síntese de suas ideias e ideais, o poema, não por acaso, intitulado “Poema Telúrico”, depois de nomear bichos, lugares e heróis populares, afirma: “tomei do padre Cícero a bênção / discutimos os caminhos do homem / a moderna igreja libertadora / a questão agrária / sonhei com a redenção humana”.

Mas, como já disse, Edir não é só protesto e indignação. É, também, um sonhador romântico, sexual, lírico. Quase adolescente, em seus amores amadurecidos; em suas memórias da infância, que deixa o poeta repleto de suspiros e saudades. É o tempo da infância que povoa o seu livro por quase todas as páginas, em quase toda a sua geografia. No seu poema “Infância”, ele diz: “naveguei por muitos portos / nada melhor pude ver / que os mares de minha infância”.

É como se o poeta habitasse um tempo demarcado pela/na infância, que sobrevive através dos seus sonhos e símbolos. No poema “Meu pé-de-chão”, conclui: “nada se perde na distância”. Nesse lindo poema – ode à liberdade – onde faz a diferenciação entre o natural habitat dos riachos e campinas de sua infância com a prisão regrada dos espaços sociais das grandes cidades, o poeta, apesar de tudo, ainda teima em sonhar: “sonho com a amplidão das campinas / sonho com a vida benfazeja / sonho com uma boa pescaria / sonho a alegria sertaneja / de pés no chão (…) onde deixei meus pés descalços? onde ficou meu pé-de-chão?”.

Entretanto, entre suas várias facetas, a do poeta da denúncia e o da memória da juventude, coexiste outro lado bem marcante: a do hedonismo e da magia amorosa. A do cantor do prazer sexual, como fonte, também, de vida, que não descarta a poesia contida no erotismo, pois, “o amor é o tempero da alma”. Assim, ao mesmo tempo épico, é um lírico infindável, equilibrando delicadeza e sensualidade, com um humor irônico e contagiante, em seus versos humanamente machos e de sabor universal. Vejamos fragmentos do belo poema “Oceanilha”: “Ilha e mar se confundem – oceanilha – / em procelas bramindo penetro sedento / nas grutas de teus segredos / (…) / por fim exaustos lado a lado / beijo e acaricio tuas enseadas / luxuriantes / abraçados vivendo a eternidade”.

         Esse é o homem, escritor e poeta Edir Meirelles, que, num dos mais emocionantes poemas do livro, “Picumãs”, faz um hino a sua origem, ao seu sertão, à valentia e dignidade do pai, Orozimbo, e reverencia a força da mãe, Ibrantina, ao mesmo tempo, ignorantes e sábios, narrando de forma generosa e plena de gratidão, o seu nascimento e crescimento, na fazenda Catingueiro, em Pires do Rio, entre festas de São João, serestas, lavadeiras, costureiras, gados e cavalos, comidas e frutos tirados da roça, plenos da delicadeza e da amorosidade, que, paradoxalmente, brotam da rudeza de se viver longe das cidades. Um mundo ingênuo que não precisava saber desse nosso mundo. Pois é nesse grande poema que, humildemente, pede: “(por essa razão é que peço / de sertanejo me trate)”.

         Grato pelos seus versos, SERTANEJO Edir Meirelles.  

(*) Poeta, membro da
União Brasileira de Escritores – RJ
e do PEN Clube do Brasil.

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     Sítio histórico

Paixão na Lapa e outras histórias como denomina seu autor é “um sítio histórico, boêmio e representativo da cultura carioca”. Conforme explicita, muito bem, Marcus Vinícius Quiroga, em seu prefácio: “O livro mostra um Rio de Janeiro sem o glamour da cidade turística, famosa por seus cartões-postais, ao abordar assuntos como homicídio, suicídio, estupro, agressão, miséria, mendicância, abandono familiar, adultério e incesto. Com exceção de Verniz de civilização, os demais contos não idealizam o espaço urbano carioca; ao contrário, retratam de modo realista as mazelas sociais da ex-capital do país.” No final acrescenta Quiroga – “A densidade na análise, a surpresa nos desfechos, a reflexão crítica da sociedade, tudo isto causa a empatia que conquista o leitor, e em especial o leitor carioca, para esta obra, cuja tensão se dá entre a construção e a desconstrução das verdades pessoais e sociais. O livro tem a virtude de todo bom espelho: deformar para melhor expressar a realidade. Na maioria das vezes, as imagens que vemos não nos agradam, mas a leitura, sim, graças à eficiência da linguagem, à atração da narrativa e ao conteúdo visceralmente humano”. Paixão na Lapa e outras histórias de Edir Meirelles sai sob a égide da Editora Kelps em convênio com a União Brasileira de         Escritores – RJ, e capa de Carlos Augusto Tavares.

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☛  Jornal de Letras
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✍ Prefácio do livro PAIXÃO NA LAPA

A DES(CONSTRUÇÃO) DO HUMANO

Em Paixão na Lapa e outras histórias, temos uma galeria de personagens que se movimentam na narrativa, em consonância com o meio ambiente em que se encontram. Observamos a predominância de textos cujos enredos se passam no Rio de Janeiro e, em particular, nos bairros do Centro, como se para este espaço convergissem todos os dramas da cidade, dramas que apresentam um mundo marcado por dores e perdas, tanto individuais quanto coletivas.

O conto mais longo, por exemplo, intitulado O mito da felicidade, refaz a história que a imprensa batizou de A chacina da Candelária. Este fato histórico, representativo da violência urbana e policial, foi recriado e, melhor, humanizado, através da menina Taís. Graças a este personagem fictício, o autor pode tratar de um dos muitos problemas sociais que nos afligem: o caso das crianças desaparecidas ou abandonadas.

A ficção, aqui, mais uma vez, encontra-se a serviço da reflexão sobre a realidade, denunciando a miséria, a violência, a descriminação e a desigualdade socioeconômica. O fator humano é, pois, a marca que identifica todas as narrativas de Edir Meirelles e faz com que o leitor se aproxime do texto. Em outras palavras, são os personagens que detêm as rédeas da linguagem, das situações e das visões narrativas. O Mito da felicidade não é o relato dos fatos ocorridos em 23 de julho de 1993, pois isto os jornais da época já o fizeram; é, antes, a história particular de Taís-Tata-Xuxa, uma menina de rua, através da qual entramos em contato com um universo mais amplo. Diríamos, usando uma analogia cinematográfica, que o escritor prefere as tomadas de plano médio e close à panorâmica. Ou seja, é o rosto do personagem que aparece na tela para expressar, metonimicamente, a carga emotiva de sua vida.

O livro mostra um Rio de Janeiro sem o glamour da cidade turística, famosa por seus cartões-postais, ao abordar assuntos como homicídio, suicídio, estupro, agressão, miséria, mendicância, abandono familiar, adultério e incesto. Com exceção de Verniz de civilização, os demais contos não idealizam o espaço urbano carioca; ao contrário, retratam de modo realista as mazelas sociais da ex-capital do país. Mas nem só de dores vivem os personagens deste livro. Temos também, por outro lado, exemplos de solidariedade, companheirismo e afeição. E quase todos ocorrem na classe baixa ou média: a menina abandonada é adotada por uma família pobre; os meninos de rua, apesar da má sorte a que foram entregues, têm seus momentos de afeto e cooperação; os “clandestinos”, durante a época da repressão, se auxiliam e, juntos, enfrentam o arbítrio.

Como contraponto à cidade, há os contos Espera (in)feliz, Via-crúcis da fidelidade, Donzelas e milagres no sertão, Ciganos, medo e paixão que são ambientados no interior ou, como é dito, no sertão. Em quase todos, predomina a pequenez da vida, em histórias determinadas pelo meio,  igualmente pequeno e sem perspectiva.

Leitor de Machado de Assis e Lima Barreto, o autor sabe compor as características físicas e psicológicas dos personagens com riqueza de detalhes e observações pertinentes e retratar as condições sociais com as lentes críticas da máquina narrativa. Com um aprendeu a sondar o mundo interior e a desmascarar as razões secretas que os levam a ter esta ou aquela conduta; com outro aprendeu a situar o personagem em sua classe, em seu espaço geográfico e em sua história de vida, tornando verossímeis suas ações. Se Machado se interessa pelo jogo social das aparências de personagens abastados, Meirelles se dirige para os desafortunados, mostrando que o mundo interior dos infelizes não é menos complexo e tortuoso do que o dos mais abastados. Os nomes e apelidos que habitam estes contos revelam esta valorização humana e afetiva que eles recebem: Tata, Bigu, Pichulé, Ratazana, Zé Curió, Roxo, Paulo do Feijão e tantos outros. Estes apelidos, que poderiam ser vistos como depreciativos em outra circunstância, aqui adquirem um status de familiaridade e de afeição. Ressaltamos, pois, mais uma vez,  a construção fabular que dá primazia à humanização das Tatas e dos Bigus da vida.

Na linha machadiana, temos Rosa diabólica que, à semelhança de Memórias Póstumas de Brás Cubas, apresenta um defunto narrador; já, na filiação barretiana, temos no conto Joana Angélica, a justiceira, ecos da Clara dos Anjos. Estes dois exemplos bastam para mostrar que a obra de Edir Meirelles sabe dialogar com o melhor da série literária brasileira, ao mesmo tempo que forja uma narrativa singular, com ferramentas próprias. Nos dois romancistas citados encontramos também o uso do humor, ainda que de forma diferente. Ora, os contos Zé pequeno, Sogra, mãe e cobra ou Galinha preta & despachos são exemplos inequívocos do humor, sem ter, no entanto, os pudores vigentes no século XIX e no início do século XX. A linguagem aqui é mais coloquial e incorpora um vocabulário típico dos personagens, para dar mais veracidade aos diálogos.

Outro tema caro ao autor é o relacionamento amoroso, como vemos em Paixão na Lapa, Rosa diabólica, Zé Pequeno, Entre irmãos, O horror do garanhão, No paraíso sem cobra(n)ças, Ciganos, medo e paixão, Criando cobras em casa. Regra geral, a temática sexual prevalece sobre a sentimental, mostrando relações adúlteras, incestuosas e violentas, o que não impede, contudo, que haja também histórias de amor com final feliz. Ironicamente, em Via-crúcis da fidelidade, a fidelidade do título se refere a do cão Rebolo para com o seu dono Baíco. Neste conjunto de contos, um cão talvez seja, não por acaso, um dos personagens mais carinhosos, como se fosse uma crítica implícita à falta de amor ou profundidade nas relações a dois.

A densidade na análise, a surpresa nos desfechos, a reflexão crítica da sociedade, tudo isto causa a empatia que conquista o leitor, e em especial o leitor carioca, para esta obra, cuja tensão se dá entre a construção e a desconstrução das verdades pessoais e sociais. Paixão na Lapa e outras histórias tem a virtude de todo bom espelho: deformar para melhor expressar a realidade. Na maioria das vezes, as imagens que vemos não nos agradam, mas a leitura, sim, graças à eficiência da linguagem, à atração da narrativa e ao conteúdo visceralmente humana.

marcos_vinicius_quiroga

                                                         Marcus Vinicius Quiroga
                                                                           Poeta e escritor
                            Membro da Academia Carioca de Letras

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 construção & edição site  by *Graça Carpes 
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