Oratória

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Discurso de

 Edir Meirelles na Academia Carioca de Letras

 

Cadeira 15 – Patronímica de Quintino Ferreira de Sousa Bocayuva.

Ocupantes pela ordem: Afonso Costa, Homero Prates, Murillo

Cardoso Fontes, Elysio Condé e Jorge Picanço Siqueira.

 

Senhores Acadêmicos!

Na carta que encaminhei ao ilustre colegiado candidatando-me a uma vaga neste sodalício, abri o coração, ressaltei minhas origens sertanejas, mostrei-me de corpo e alma.

Afirmei que apesar da minha timidez, cometi alguns atrevimentos ao longo da vida. Amansei burro brabo, presidi o Sindicato dos Escritores do Estado do Rio de Janeiro e exerço atualmente a presidência da União Brasileira de Escritores (UBE-RJ). E disse mais: que recentemente intentei novo desatino – outro romance. Desta vez, ambientado na cidade grande com o título de O feiticeiro da Vila.

Fui taxativo em afirmar que de bruxarias e fantasmas os matutos entendem. E, se não tivessem medo das coisas misteriosas do sertão, que lessem ao menos as primeiras linhas de meus despropósitos.

Finalmente, aqui estou deveras atrevido para me tornar membro da gloriosa Academia Carioca de Letras, cadeira número 15, patronímica de Quintino Bocayuva.

Registro meus sinceros agradecimentos aos destemidos acadêmicos que me elegeram. Prometo envidar os melhores esforços para manter bem alto o nome desta entidade. Saúdo esta agremiação cultural digna do novo milênio. Tradicional e moderna a um só tempo. Plural na sua composição e pela primeira vez conduzida por mãos femininas competentes – Stella Leonardos e Ana Helena Ribeiro Soares, respectivamente, Presidente e Vice-Presidente que estão florindo e revitalizando os eventos deste sodalício.

Aproveito este instante para render homenagens à eleita do meu coração. Mulher que, desde que nos conhecemos na Bahia, se faz presente em todos os momentos de minha existência. Esta gaúcha corajosa soube equilibrar o meu biorritmo, acalentar meus sonhos e adoçar os meus dias – Rachel Cecchin Meirelles. Está acompanhada de nossos filhos, Maíra e Mauro.

Tenho muita honra de ser recepcionado nesta casa pelo ilustre acadêmico Gilberto Mendonça Teles. Como eu, possui suas raízes no Planalto Central. Nascido em Bela Vista de Goiás. Poeta, crítico, ensaísta, conferencista. Professor Catedrático de Literatura Portuguesa e Hispano-Americana de prestígio internacional. Um nome que eleva a grandes alturas a cultura brasileira. Possui extensa obra publicada. Ao Gilberto Mendonça Teles os meus sinceros agradecimentos.

A Cadeira de número 15 tem como patrono Quintino Ferreira de Sousa Bocayuva. Foram seus ocupantes pela ordem os seguintes acadêmicos: Afonso Costa, Homero Prates, Murillo Cardoso Fontes, Elysio Condé, Jorge Picanço Siqueira.

Afonso Costa (1) (Jacobina, BA, 2/08/1885 – Rio, RJ, 31/121955). Assumiu a cadeira em 1930 e chegou à presidência da Academia Carioca de Letras em 1935. Na sua gestão foi organizado o Primeiro Congresso de Academias de Letras e Sociedades de Cultura Literárias, tendo resultado daí a Federação das Academias de Letras do Brasil. Era um homem de múltiplas qualidades literárias. Foi conferencista, biógrafo, ensaísta, jornalista e poeta. Foi também membro da Academia Baiana de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Publicou: Versos; Almáquio Diniz no seu Decenário Literário, A sombra da Arte e à Luz da História (ensaios e conferências); Poetas de outro sexo, Baianos de Antanho (biográficos) e outros.

O sucessor de Afonso Costa foi o não menos ilustre escritor Homero Prates (1) nasceu em São Gabriel, RS, em 1890. Usava o pseudônimo: Juvenal, o moço. Deixou suas pegadas nas vertentes do Simbolismo tradicional. Foi precursor, no Brasil, desta corrente literária com o livro Canções da Decadência. Teve em Cruz e Souza o seu mentor. Fez parte da última geração de simbolistas e integrava o grupo gaúcho com Álvaro Moreyra, Felipe de Oliveira e Eduardo Guimarães. Exerceu a crítica literária e não se deixou influenciar pelo Movimento Modernista de 1922.

Obras publicadas: poéticas – Horas coroadas de rosas e espinhos, Torre encantada, No jardim dos ídolos e das rosas, Ao sol dos pagos, Morte de Ariel, O sonho de D. João; prosa – Paraísos interiores. Faleceu no Rio de Janeiro em 1957.

Murillo Cardoso Fontes foi o sucessor de Homero Prates. Nasceu e viveu no Rio de Janeiro (07/07/1902 – 13/03/1985). Era poeta, crítico e biógrafo. Médico e Professor cirurgião, além de político, foi também membro da Academia Petropolitana de Letras. Jorge Picanço Siqueira em seu discurso de posse neste sodalício, citando o confrade Silvio Meira afirmou que “Murillo Fontes teve três devoções, motivadas pelos mais nobres sentimentos”. Destaca que sua primeira devoção foi à memória do pai, Antonio Cardoso Fontes. Fez-lhe a biografia com carinho e devoção de tal forma que mereceu o Prêmio Joaquim Nabuco da Academia Brasileira de Letras, em 1980.

A segunda devoção foi à medicina e a terceira as letras.

O sucessor de Murillo Cardoso Fontes não poderia ser outro senão o ilustre Elysio Condé. Exerceu a profissão de médico e trazia em suas artérias o sangue de tradicional família de escritores, oriundos da pernambucana Caruaru. Fundou e dirigiu o Jornal de Letras, auxiliado por seus irmãos João e José Condé. Sete anos depois assumiu, sozinho, a responsabilidade pelo jornal. O prestigiado periódico, de caráter exclusivamente cultural, teve longevidade invejável – mais de quatro décadas. Era casado com Dona Heloísa Gomes Condé, pai de Lúcia Maria Condé.

Foi Diretor-Geral da Biblioteca Nacional em 1960. E também diretor das seguintes entidades: PEN Clube do Brasil; União Brasileira de Escritores (UBE-RJ); Associação Brasileira de Escritores, entre outras atividades. De seu livro intitulado O Navegante Solitário (2), transcrevo:

“Lembro-me quando, há trinta anos, saímos uma noite, eu, João e Tiago de Melo a pregar cartazes por toda a cidade, dando início a uma campanha que jamais poderíamos pensar que chegaríamos até o dia de hoje”.

Elysio Condé era um dínamo que se dedicava com ardor ao trabalho do periódico, com dedicação exclusiva. Recebeu inúmeras honrarias em vida. Entretanto, afirmou certa vez: o que gosto mesmo é de trabalhar.

Sobre ele escreveu Antonio Carlos Vilaça com toda propriedade que lhe era peculiar:

“Elysio e o Jornal de Letras se identificaram de modo profundo. Foi casamento de muito amor. Ninguém os pode separar. Com que entusiasmo, com que paixão minuciosa Elysio Condé se consagrou (sozinho) a nobre tarefa de comandar o Jornal de Letras. Coragem e persistência”.(3)

Falarei agora de um extraordinário acadêmico que tenho a honra de suceder. Jorge Picanço Siqueira foi um intelectual de grandes e variadas qualidades – médico, artista plástico, jornalista, poeta e excelente escritor. Exerceu grande e continuada influência nos meios culturais do antigo e do novo Estado do Rio de Janeiro. É importante destacar a seqüência de médicos escritores que ocuparam a mesma cadeira nesta academia: Murillo Cardoso Fontes, Elysio Condé e Jorge Picanço Siqueira.

Seu livro denominado Motta Coqueiro, culpado ou inocente?(4) é um trabalho requintado e de fôlego, no melhor estilo cordel. Narra fatos da História Jurídica deste país. Trata do julgamento do personagem que fora condenado à forca, por um crime hediondo que o acusado e seus prováveis cúmplices negaram sempre. Felizmente, a celeuma provocada pela infeliz sentença judiciária e a campanha movida pelo jornalista, escritor, acadêmico e abolicionista José do Patrocínio levaram as autoridades a abolir a pena de morte no Brasil.

Não podemos olvidar sua origem familiar. Jorge Picanço descende de família tradicional fluminense. Enraizada desde os primórdios, na ciência e na cultura – vem da genealogia do Conselheiro José Corrêa Picanço que fora o fundador do Ensino Médico no Brasil. Conforme nos ensina Luís Antônio Pimentel que saudou o escritor quando de seu ingresso na Academia Niteroiense de Letras. (5) Teve berço e tradição familiar. Basta lembrar que esta academia abriga outros dois notáveis Picanços. Refiro-me aos ilustres acadêmicos Aloysio Tavares Picanço e Maria Apparecida Picanço Goulart.

Tive pouco convívio com o homenageado, mas suficiente para atestar o seu caráter de líder sereno, cavalheiresco e de fino trato. Possuía nobreza nos gestos e na alma. Sabia angariar a simpatia de seus pares. Um homem talhado para a liderança. Sua passagem pela presidência de diversas academias – Carioca de Letras, Guanabarina de Letras, Brasileira de Médicos Escritores, de Letras de Macaé e outras, atestam sua vocação para grandes vôos de liderança. Exerceu atividades múltiplas (medicina, literatura e artes plásticas) e, em todos os campos da criatividade sobressaiu com altivez e elegância.

A ilustre confreira, acadêmica Márcia Pessanha, quando presidiu a Academia Guanabarina de Letras, concedeu-lhe o título honorífico de Presidente de Honra daquele sodalício. Justa e oportuna homenagem!

Era um homem afeito à cultura livresca. Desde tenra idade, cursando o Ginásio Macaense, sob a influência de Dona Jacyra Tavares Duval enveredou-se nas leituras e se tornara um obstinado devorador de livros. Freqüentava a Biblioteca da Prefeitura com assiduidade – em companhia de poucos jovens, mas que seriam a nata cultural de sua geração. Entre eles se elencam: “Apparecida Picanço, Ney Peixoto do Vale, Newton Carlos, Ely Jaccond d’Azeredo…” todos citados na crônica Livros Ali, o futuro médico, escritor, artista plástico e acadêmico se enriquecia na leitura dos grandes autores: Monteiro Lobato, Malba Tahan, José Lins do Rego, Paulo Setubal. Além de O Tesouro da Juventude, adentrou também nas páginas de Érico Veríssimo.

A meu ver, o livro Macaé de Antigamente (6) é uma dádiva preciosíssima saída da pena de Jorge Picanço Siqueira. Um raro caso de amor profundo ao torrão natal que ele tão bem soube interpretar. Um relicário inestimável da Princesinha do Atlântico que se constitui em matéria obrigatória para os estudiosos da História de Macaé. Sua obra encantou-me de tal maneira que deixei o Rio num final de semana e fui conhecer sua cidade natal.

Feliz da terra que pode contar com um memorialista deste porte. Felizes são os macaenses que podem recordar ou conhecer filigranas da sua terra. No mencionado livro há algo saudosista que impregna a alma dos leitores. Todos os companheiros de sua geração são personagens de suas crônicas permeadas de história contemporânea. Os bailes memoráveis com suas peculiaridades, as orquestras, os conjuntos musicais e até a canção símbolo de uma geração – Only you! O cinema e os grandes filmes que encantaram seus freqüentadores. As descrições pormenorizadas dos “antiquários” macaenses são relatos de preciosidades a serem preservadas – a Igreja de Santana sempre fotografada pelos fiéis, turistas e visitantes. Vale mencionar ainda o Centenário, o Coreto e até, pasmem! Uma Santa Ceia feita a canivete que, diz, se encontra na Casa de Caridade. A escada do Instituto Nossa Senhora da Glória – outra relíquia. Dela o memorialista diz com muita propriedade: “Em espiral, sem um prego ou parafuso. Toda encaixada”. E, acrescenta vaidoso – “Orgulho nosso!”

O festejado cronista se envaidece ao citar os codinomes da terra natal: Rio dos Bagres, Macaé, Macaba Doce, Ouro Negro, Cidade do Petróleo, Terra de Princesas…  Esse último codinome, conta o homenageado (7), surgiu em razão da visita da Princesa Anne à cidade de Macaé. O Canal Macaé-Campos foi outra epopéia registrada pelo cronista atilado. Uma obra importante e memorável, levando o progresso e comunicação às populações litorâneas.

Jorge Picanço Siqueira foi um memorialista ímpar. Exemplar, meticuloso, fazia de uma aparente insignificância uma obra relevante para os contemporâneos e os futuros leitores. O passado da Terra de Princesas e por extensão, do estado do Rio de Janeiro, está mais vivo de que nunca, palpitante, graças às inesquecíveis páginas deixadas impressas pelo imortal acadêmico. Conheci o ilustre Pedro Nava e o visitei em sua residência no bairro da Glória, aqui bem próximo. Um memorialista com M maiúsculo – que, a princípio, foi um escritor bissexto, com Baú de ossos. Depois se derramou em diversas e importantíssimas obras literárias. Pedro Nava e Jorge Picanço Siqueira, ambos médicos, memorialistas e contemporâneos, viveram a mesma realidade histórica e as mesmas vicissitudes profissionais do povo carioca-fluminense. Imortalizaram-se através da literatura. É de bom alvitre pinçar de uma página de Horácio Pacheco onde destaca a importância histórico-literária dessa águia macaense. Assim se manifestou:

“Homem de múltiplas aptidões, além de médico (poeta, cronista, cordelista, pintor, gravador…), Picanço tem especial lugar, para mim, na memorialística. Na melhor forma, acrescente-se, do mestre do “Baú de Ossos”: Não apenas um trabalho de restauração, mas, sobretudo um esforço de renovação, e aquele conteúdo vital às vezes não identificado na própria hora da ocorrência.”.

E acrescenta o ilustre Horácio Pacheco:

“Morto Pedro Nava, Picanço é o meu memorialista predileto”.

Possivelmente teria questionado a exemplo de Machado de Assis: “Mudei eu ou mudou o Natal?” Interessantíssimo o Natal na visão encantada de Jorge Picanço. Fala da festa máxima da Cristandade com veneração, com a reverência dos iluminados, seguro da importância desta data civilizatória. Um natal sagrado graças à religiosidade que emanava de seu coração. A montagem do presépio era um momento de devoção, um ato solene de confraternização familiar. O homenageado, em sua singeleza, enfatiza:

“O nosso era simples, demorava muito fazer, tinha peças de louça, de papelão e de celulóide. Distraia muito…”

Menciona os presépios da igreja, outro em miniatura e dá grande realce ao de um ferreiro de Niterói. Traz à tona uma matéria de seu amigo, acadêmico Marcos Almir Madeira que saiu publicado em O Fluminense. Fala da juventude dos dois e outros nomes de suas relações – pessoas ilustres da sociedade fluminense. Contudo, o nome que mais sobressai em suas crônicas é o da ilustre acadêmica e também artista plástica Maria Apparecida Picanço Goulart. Em suas páginas e entrelinhas sobressai o carinho especial com que é tratada e a vivência inesquecível de uma vida inteira.

Picanço não era apenas cronista do saudosismo. Registrava também o progresso, os avanços tecnológicos, mormente aqueles relacionados à sua inesquecível Macaé. Fala com entusiasmo sobre o petróleo e sua ocorrência na plataforma continental do município. Destaca quando “Macaé completou 167 anos. Explodindo em Progresso!”

Também os tipos populares saltitam em suas páginas. A estes ele denominava de “Zés-ninguéns”. O “Mudo” que prestava atenção nas conversas da Pharmácia (grafada com ph) e ria de todas as lorotas. O “Papa-lambida que acabou alcoólatra e perambulava pelas ruas de Macaé irradiando futebol” imitando locutores esportivos.

Não posso olvidar o poeta Jorge Picanço Siqueira. Trago uma pequena amostra poética deste incrível macaense que, sempre ligado aos temas da terra, também privilegiou o folclore. Eis o poema:

TAMBA-TAJÁ (9)

I

Anaro, índio, amava

sua esposa noite e dia

que, doente, não andava

pois doença a consumia.

II

Em seu ombro a carregava

amarrada firmemente,

mas sentiu que ela pesava

aquietando de repente.

III

Vendo então que estava morta

fez a cova e a sepultou.

“- Minha vida… pouco importa!”

disse e junto se enterrou.

IV

Uma planta ali encontraram

com dons bem enfeitiçantes.

Tamba-tajá lhe chamaram,

virou planta dos amantes.

 

Assim foi o imortal Jorge Picanço Siqueira. Um homem encantado com a vida, encantado com a cidade que o viu nascer e crescer; encantado com a ciência; encantado com as artes plásticas (na pintura deixou obras valiosas); encantado com seus amigos de infância e de todos os tempos; encantado com sua sobrinha para a qual dedicou inúmeras crônicas, mais tarde editadas em livro com o título – Cartas a Fraçoise (10). Mas, acima de tudo, encantado com a sua musa Maria Apparecida Picanço Goulart que adoçou as páginas de sua vida desde tenra idade. Seduzido pela literatura, nos presenteou com páginas belíssimas que ficarão como um marco cultural de grande expressão e consulta obrigatória para todos que queiram ter um retrato fiel da história fluminense.

Enfim, Jorge Picanço Siqueira encantou-se definitivamente para a História e continua vivo na memória de todos que com ele privaram. Está vivíssimo nas páginas encantadas da sua poesia, da sua prosa e das suas crônicas encantadoras e inesquecíveis.

Falarei agora sobre o meu patrono. Conhecer Quintino Ferreira de Souza Bocayuva é travar contato com os primórdios da República do Brasil. É restaurar no indivíduo a chama viva do amanhecer e dos sonhos de lutas e de grandezas em prol de um Brasil grande. Quintino Bocayuva foi um revolucionário de primeira água, um rebelde na acepção plena da palavra. Aliás, fez da palavra o seu instrumento de luta e de doutrinação. Foi um homem destemido, um batalhador pelas causas republicanas, um Dom Quixote dos trópicos. Lutava contra os moinhos de vento e brandia sua espada contra os poderosos membros da Monarquia decadente.

Nasceu na cidade do Rio de Janeiro, em 4 de dezembro de l836. Filho de Quintino Ferreira de Souza, baiano e Maria Candelária de Moreno (argentina). Ficou órfão em tenra idade. Foi para São Paulo onde se matriculou no curso anexo da Faculdade de Direito. Colaborou com o Acaiaba, órgão acadêmico e fundou com Ferreira Viana o jornal A Honra publicando artigos de tendências republicanas. Nesta ocasião, justificando seus ardores nativistas adotou o sobrenome Bocaiúva, nome emprestado de uma palmeira nativa. Com dificuldades financeiras e problemas de saúde, retornou às plagas cariocas.

Foi colaborador efetivo do Diário do Rio de Janeiro de Saldanha Marinho. Mais tarde no Correio Mercantil tratou de assuntos americanos analisando as relações do Brasil com a Argentina e o Paraguai e as daquelas nações entre si.

Por ocasião da Guerra do Paraguai esteve no Prata de onde voltou decididamente impregnado das idéias antimonarquistas. Era já, um doutrinador ardoroso e convincente. Além de brilhante orador, manejava brilhantemente sua pena de jornalista combativo.

Com Saldanha Marinho fundou o Partido Republicano, lançando A República que trouxe no primeiro número o Manifesto Republicano de sua autoria com a colaboração de Saldanha Marinho e Salvador de Mendonça.

Em 1873 Quintino Bocayuva teve um gesto que reputo de grande ousadia, provocação e repercussão:

“No dia da Proclamação da República na Espanha, mandou hastear na janela do prédio do jornal, as bandeiras daquela nação e a do Brasil sem a coroa e produziu inflamado discurso” (11).

Como era de se esperar, a reação do governo monárquico foi fulminante. A polícia empastelou a redação e oficinas do jornal A República.

O infatigável jornalista fundou O Globo em 1874, que durou quatro anos. “Em 1885 dirigiu O País, no lugar de Rui Barbosa. Nesse jornal revelou toda sua capacidade, consagrando-se no Brasil inteiro”. Considerado por Ferreira de Araújo, o Príncipe do Jornalismo. Com grande prestígio, elegeu-se deputado pelo Maranhão. Da tribuna continuou sua pregação contra o trono, angariando mais e mais adeptos com suas habilidades de orador, diplomata e refinado político. Foi Quintino Bocayuva o artífice que convenceu Deodoro da Fonseca a aderir à causa republicana.

“Em 1889, eleito chefe do Partido Republicano, viveu a 15 de novembro as emoções máximas de sua existência, vendo realizar-se o sonho pelo qual tanto lutara. O número de O País do dia seguinte mostrou os sentimentos de júbilo do diretor(11).

Participou do Governo Provisório como Ministro das Relações Exteriores e, interinamente, da Agricultura. Todos os demais ministros foram indicações sua.

Em 1890, esteve no Rio da Prata e assinou um Tratado das Missões que se tornaria polêmico. Foi acusado de advogar em favor da Argentina. Convocado, “foi ao Congresso e explicou a situação política e as razões que o levaram a assinar o Tratado, pedindo àquela casa que o rejeitasse”. Foi ovacionado. Mais tarde ocupou a cadeira de Senador pelo Estado do Rio na Constituinte Republicana.

Mas o Doutor Semana, um dos codinomes de Bocayuva, continuava um espírito rebelde e conspirativo. Com o golpe de Estado de Deodoro, em 1891, foi preso e acusado de conspirar contra a República. Foi eleito e reeleito senador. Em 1899 renunciou para assumir a Presidência do Estado do Rio. Mais tarde novamente Senador, foi vice-presidente do Senado.

Na campanha Civilista foi adversário de seu amigo e companheiro Rui Barbosa. Faleceu em 1912.

De Oscar Wild recolho este ensinamento: “um sonhador é aquele que só ao luar descobre o seu caminho e que, como punição, apercebe a aurora antes dos outros”.

Quintino Bocayuva era, a um só tempo, sonhador, revolucionário e construtor. Sonhou a República e percebeu o seu alvorecer. Doutrinou, buscou seguidores e conspirou para alcançar os sonhos republicanos. Foi, sem dúvida, aquele que mais colaborou para implantar os alicerces do novo regime.

Em reconhecimento de seu trabalho, liderança e civismo recebeu o título de Patriarca da República.

Não podemos olvidar algumas vozes expressivas sobre o patrono desta cadeira, que hoje tenho a honra de assomar. Sobre Quintino Bocayuva, assim afirmara Nilo Peçanha:

“Como jornalista foi o maior de todos. Ninguém combateu com mais veemência do que ele a dinastia extinta, a propriedade escrava, quando ela abria um parêntese à civilização do Brasil; mais também ninguém foi mais impessoal e não há por todo este país um só homem a quem ele tivesse mutilado a personalidade moral ou a consciência política”(11).

Para finalizar minha fala, é imprescindível a voz mais abalizada de nosso idioma. Refiro-me ao fundador da Academia Brasileira de Letras, Machado de Assis, que se manifestou de modo contundente sobre as qualidades literárias e cívicas do patrono da cadeira número 15 da Academia Carioca de Letras. São do ilustre fundador do Petit Trianon as seguintes palavras:

“O último drama de Quintino Bocaiúva (referindo à peça Os Mineiros da Desgraça) ao lado mérito literário, respira uma alta moralidade, duplo ponto de vista que deve ser considerado e em que mereceu os sinceros aplausos dos entendidos. É sempre belo quando uma voz generosa se ergue em nome da inteligência e da probidade, para protestar contra as misérias sociais, com toda energia de um caráter e de uma convicção”(11).

 

Muito obrigado!

Rio de Janeiro, RJ, 24 de setembro de 2007.

 

(1) – Enciclopédia de Literatura Brasileira, Vol.I e II  – Afrânio Coutinho, J. Galante de Sousa. Editora Global, 2001.

(2) – O Navegante Solitário – Edições GRD – Pró-Memória. 1983. Pág. 115.

(3) – Idem, idem – In Prefácio.Pág. XIII

(4) – Motta Coqueiro, culpado ou inocente? Parceria Editorial – 2004.

(5) – Idem, obra citada.

(6) – Macaé de Antigamente. Pág. 29 e 30.

(7) – Idem, obra citada, pág. 73.

(8) – Idem, obra citada, pág. 144.

(9) – Anuário da Academia de Letras do Estado do Rio de Janeiro –2000.

(10) – Cartas a Françoise –Editora Cromos, Niterói, RJ, 1990.

(11) – Dicionário Literário Brasileiro de Raimundo de Menezes.

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