Entrevistas


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ENTREVISTA DO POETA ALFREDO PÉREZ ALENCART

Concedida ao escritor Edir Meirelles

Versão para o português de Cláudio Aguiar (*)

 

    *Alfredo Pérez Alencart pelo artista Miguel Elias   

Tive grande prazer de participar do XV Encontro de Escritores Ibero-americanos realizado na cidade de Salamanca, Espanha, em outubro de 2012. Na ocasião foi lançado o livro bilíngue – ALDABAS A CINCO VOCES – dos seguintes autores: Edir Meirelles, Luiz Gondim, Juçara Valverde, Marcia Barroca e Messody Benoliel. Sendo que o segundo não pode comparecer ao evento. Eu, e minhas companheiras estivemos presentes, graças a uma recomendação especial do poeta brasileiro de origem galega, Reynaldo Valinho Alvarez, amigo do coordenador do encontro, Alfredo Pérez Alencart, prefaciador da mencionada obra. Desta forma tivemos oportunidade de visitar a cidade dourada de Miguel de Unamuno, poeta e filósofo homenageado na ocasião. O evento foi sucesso absoluto. Contou com a presença de mais de três dezenas de poetas e escritores de diversos países, especialmente latino-americanos.

Alencart é peruano/espanhol, professor da Universidade de Salamanca. Possui obras publicadas em mais de uma dezena de idiomas. Além de agitador cultural, é poeta, ensaísta, tradutor. Já traduziu do português para o espanhol, especialmente de brasileiros como Cláudio Aguiar, Astrid Cabral, Carlos Nejar, Paulo de Tarso Correia de Melo e Reynaldo Valinho Alvarez. É bastante conhecido entre nós e goza de enorme prestígio em nossos meios literários. Por estes e outros motivos não poderia deixar de entrevistá-lo para que nosso público maior tome conhecimento deste intelectual que, de há muito ultrapassou as fronteiras do idioma de Cervantes.

EM – Alfredo, como foi sua infância e sua adolescência. Enfim, fale de sua juventude em Puerto Maldonado, Peru. Teria jogado futebol?

APA – O trópico está totalmente gravado no meu DNA. O fato é que a Amazônia resulta tão poderosa que continua a me dar energia, apesar da distância espacial e temporal que se interpõe em meu horizonte existencial: as raízes da selva são invisíveis e se espalham por todos os hemisférios do meu ser. Em Puerto Maldonado, capital de Madre de Dios, região situada na fronteira com Brasil e Bolívia, eu vivi a infância e a adolescência, as quais, ainda hoje, exortam mensagens de grande felicidade, com meus pais esbanjando amor e exemplos de comportamento ético, ou alguns amigos dos tempos da escola fundamental… O futebol foi a minha paixão e eu joguei muito. Com 15 e 16 anos, eu comecei a jogar como zagueiro central numa equipe de primeira divisão de minha cidade. Então, eu tinha tamanho, força e velocidade, mas, ao mesmo tempo, também aspirava ingressar na faculdade. Aos 16 anos, ao terminar o colegial, fui para Lima, a fim de estudar Direito, deixando para trás o futebol como prática cotidiana.

            EM – Sabemos de suas atividades culturais na Espanha e sua dinâmica na organização do XV Encontro de Escritores Ibero-americanos em Salamanca. Para satisfação de nossos leitores, gostaria de saber como se deu a sua mudança do Peru para a Espanha.

APA – Eu vim a Espanha para ensinar o meu coração a deixar de agigantar dentro de mim o feudo monumental de onde havia saído meu avô paterno, o asturiano Alfredo Pérez Fernández. Daqui, de Galiza, também emigraram os Troncoso, a exemplo de minha avó Maruja. No plano da genética e da emoção, esta foi a principal motivação. No campo jurídico, ao concluir os meus estudos de Direito, em Lima, decidi fazer os estudos de doutoramento, em um desses países: França, Itália ou Espanha. Por fim, decidi-me por Salamanca, a fim de poder desfrutar de sua universidade, que mantém muito prestígio na América Latina. Sabia já da existência do teólogo Francisco de Vitória, fundador do Direito Internacional; do grande poeta chamado Fray Luis de León; do polêmico filósofo e influenciador de espíritos chamado Miguel de Unamuno, essencialmente poeta …

EMFale-nos um pouco de seu ingresso na docência da Universidade de Salamanca?

APA – Cheguei a Salamanca com 23 anos e matriculei-me no Curso de Doutorado, elegendo a área de Direito do Trabalho. Por falta de uma subvenção ou renda suficiente, durante o primeiro ano, procurei trabalho em horário extra necessário para sobreviver. No segundo ano consegui uma bolsa oferecida pelo Conselho de Salamanca. Quando terminou essa fase, decidi voltar ao Peru. Foi quando Carlos Palomeque, então professor decano da Faculdade de Direito, que me acolhera tão generosamente no Departamento de Direito do Trabalho, me pediu para ficar ligado a uma disciplina de pós-graduação intitulada Relações Trabalhistas, vinculada à Faculdade de Ciências Sociais. Fui selecionado como professor interino. Naquela época eu não poderia ser um professor regular por não ter a nacionalidade espanhola. Em 1992, uma vez aprovado o processo de nacionalização, submeti-me a concurso para a função de Professor Titular. Eu devo tudo a Carlos Palomeque, pois foi ele quem me abriu as portas de Salamanca. Passados 25 anos, eu fiz de Salamanca a minha cidade, à qual, na medida dos meus esforços, trato de retribuir da melhor maneira possível. Carlos Palomeque, notável jurista trabalhista espanhol, foi meu chefe e, agora, é um bom amigo. Ao ter a sorte de trabalhar sob sua direção, ele notou, desde o início, que a minha maior vocação, sem desdenhar da gestão técnica e funcional das leis e decisões judiciais trabalhistas, era (e continua a ser) a poesia. E recomendou que eu procurasse me dedicar às funções de professor e, a seguir, ao que me animava e revificava o espírito: a Poesia. Por causa dessa liberdade, e de muitas outras demonstrações de afeto, nunca deixarei de ser grato a ele.

            EM – O senhor vem atuando como Professor Titular na Universidade de Salamanca e está à frente deste vitorioso Encontro de Escritores Ibero-americanos. Conte-nos, como surgiu esta ideia, posta em prática e que perdura por tanto tempo com grande sucesso?

APA – Tudo se vincula a outros eventos anteriores a esses primeiros 15 Encontros realizados Eu comecei a coordenar eventos literários desde 1987. Entre 1990 e 1992, trabalhei na coordenação do Fórum Latino Americano da Universidade de Salamanca, atividades organizadas para assinalar o V Centenário do Descobrimento da América. Dos muitos seminários e semanas temáticas, não posso deixar de mencionar o Fórum de Poesia, de 1991, ao qual vieram os escritores  Emilio Adolfo Westphalen (Peru), Gonzalo Rojas (Chile), Álvaro Mutis (Colômbia), Olga Orozco (Argentina), Eugenio Montejo (Venezuela), Pedro Shimose (Bolívia), Carlos Petty (Venezuela) e uma dúzia de outros poetas americanos de excelente qualidade. Entre 1992 e 1998 eu fui secretário do Departamento de Poéticas “Fray Luis de León”, da Universidade Pontifícia de Salamanca, criada pelo humanista Alfonso Ortega Carmona, meu mestre em elevados temas poéticos e também como professor de filologia grega. Ele me fez conhecer a poesia de Píndaro, entre outros helenos e poetas latinos, a exemplo de Horácio, que os traduziu com a delicadeza que só um poeta pode alcançar com a obra de outro colega. Com Alfonso Ortega organizei inúmeros eventos poéticos e literários que impactaram profundamente Salamanca. Isso me levou, em 1998, a pedir a colaboração de Pilar Fernandez Labrador, no sentido de organizar um evento de prestígio anual. Ela era vereadora de Cultura da Cidade de Salamanca e, sob o seu impulso, o evento começou a ser citado na América como algo consolidado no âmbito da poesia. O primeiro Encontro foi realizado em homenagem à chamada Geração de 98, com a participação de escritores espanhóis de reconhecida contribuição para a literatura e o pensamento latino-americano. Em seguida, vieram os poetas José Hierro, Claudio Rodríguez, António Salvado, Alejandro Romualdo, Santiago Castelo, Jaime Siles, Jesus Hilario Tundidor, Josephine Verde, José Ledesma, Luis Lopez Andrada, Ada Salas, entre outros. A verdade é que esse magnífico início ficou marcado de maneira indelével. E assim, os Encontros foram acontecendo, como reunião de vozes consolidadas, mas, também, como uma oportunidade para lançar prometedores jovens poetas. Em 2005, começou uma outra notável fase, denominada Cúpula de Poética Ibero-americana, realizada antes da Cúpula de Presidentes e Chefes de Estado da América Latina. Convidamos um poeta de renome de cada um dos 21 países da comunidade latino-americana de nações. Do Brasil veio Reynaldo Valinho Alvarez. A partir de então, o Encontro anual tem sido dedicado a um determinado país e a um poeta que, em nome de todos os seus compatriotas, recebe a homenagem e a publicação de uma antologia de sua obra completa. Assim, de México veio o poeta José Emilio Pacheco (2006); de Brasil, Álvaro Alves de Faria (2007); de Cuba, Nancy Morejón (2008); de Chile, Elicura Chihuailaf (2009); de Portugal, António Salvado (2010): de Argentina, Hugo Mujica (2011); e, finalmente, de Espanha, Miguel de Unamuno (2012). Este ano vamos prestar homenagem ao notável Fray Luis de León, outra indiscutível referência de Salamanca. A esses Encontros tem acorrido mais de 300 poetas convidados, dentre os países das Américas e da Península Ibérica.
O “segredo” que explica o sucesso de um evento que já dura cerca de três décadas – coisa rara em se tratando de festivais ou encontros internacionais de poesia -, é a humildade ao apresentar a nossa proposta. Nos mantemos distanciados dos focos publicitários artificiais, dos poetas que se declaram imprescindíveis e subordinados a um cânone que preferimos ignorar. Noutras palavras: nós nos concentramos na poesia, na voz de poetas genuínos com produção de longo curso ou com novas vozes que precisam de um ponto de apoio para se consolidarem.

             EM – Sabe-se hoje que o idioma de Cervantes é um dos mais importantes do mundo e o segundo mais falado no ocidente. Naturalmente que esses encontros de escritores resultaram benéficos para o fortalecimento da Língua Espanhola e sua difusão no mundo globalizado. Quais os resultados mais palpáveis destas conferências?

APA – Salamanca, por meio desses Encontros, está se tornando “reveladora” de nomes fundamentais da poesia em espanhol e português. Mas, também, é a Sede de Poesia para jovens criadores, pois, aqui, eles encontram apoio vital para lidar com humildade e determinação ao longo de seus percursos poéticos.

            EM Qual a sua visão da importância da poesia no mundo moderno? Quais os grandes nomes contemporâneos da poesia em língua espanhola?

APA – A poesia não se vende. Nesse ponto, aliás, reside a sua importância. Essa minha opinião tem duplo sentido: primeiro, não se vende porque o verdadeiro poeta aponta suas armas contra tudo que prejudique a dignidade do ser humano. Ele prefere o desterro ou o isolamento antes de clamar contra a injustiça. Isso, também, tem o seu lado positivo, posto que, se a poesia não pode ser vendida, significa que ela está fora do mercado por causa de sua baixa procura. Assim, ela não sofre a pressão da novidade, do editorial apressado… A poesia, em segundo lugar, só deve ser escrita e publicada quando há uma grande necessidade de dizer algo. E apesar de sua aparente falta de valor ou importância, a poesia resulta imprescindível para o mundo moderno e até mesmo para o mundo futuro, pois o homem tem um espírito e precisa dessa outra linguagem para usar como um bálsamo a fim de superar a dureza cotidiana ou a falta de lógica para tanto materialismo que, eventualmente, termina por amortecer os sentidos, circunstância que concorre para esvaziar o significado da vida. Em relação aos poetas todos têm seus gostos, que os comovem e os deixam marcados para sempre. Na minha lista, entre os poetas mortos nos últimos 15 anos, destaco o cubano Gastón Baquero; os peruanos Romualdo Alejandro e Emilio Adolfo Westphalen; os espanhóis José Ángel Valente, Claudio Rodríguez e José Hierro: o mexicano Marco Antonio Montes de Oca; a argentina Olga Orozco; o venezuelano Eugenio Montejo; e, o chileno Gonzalo Rojas. Entre os vivos, tenho predileção pelos venezuelanos Ramón Palomares e Cadenas Rafael; espanhóis Jesus Hilario Tundidor e Brines Francisco; uruguaio Circe Maia; os bolivianos Hugo Mujica e Pedro Shimose e a cubana Nancy Morejón. Agora, o poeta maior da língua espanhola foi, é e será, o peruano César Vallejo, morto em Paris em 1938.

            EM Poderia nos dizer da importância de Miguel de Unamuno, sua influência na cultura hispânica, e a singularidade de sua homenagem no XV Encontro de Escritores Ibero-americanos? Como foi o relacionamento do filósofo com os poetas do Novo Mundo?

APA – Grande e transcendente tem sido a influência do pensamento unamuniano, especialmente pela postura crítica e não conformista que ele soube imprimir não só aos seus escritos, mas, também, à sua vida social. Marchou sempre contra a corrente. Neste ponto, Unamuno revelou-se um Poeta a questionar publicamente, quer na literatura, quer política, mesmo que para tanto tivesse de sofrer, como efetivamente ocorreu, a violência do banimento, da demissão ou o desdém por parte de escritores encastelados no poder. É um exemplo de obra e de vida. Ele manteve constantes relações com escritores, filósofos e pensadores de língua espanhola das Américas. Entre 1900 e 1930, quase todos os grandes nomes daquelas paragens enviaram-lhe livros dedicados, os quais estão preservados na Casa-Museo Miguel de Unamuno, de Salamanca. Ele escreveu artigos e resenhas  em vários jornais de Espanha e de América, especialmente em La Nación, de Buenos Aires, um dos periódicos mais importantes. Assim, boa parte desses escritores, no fundo, queria que o basco de Salamanca desse amparo e divulgação às suas obras, o que nem sempre acontecia, porque Unamuno era um crítico que escrevia sem hipocrisia. Dom Miguel de Unamuno sempre quis ser poeta, porém, tal condição não foi devidamente reconhecida em vida, nem em sua terra natal, talvez porque ele começou a publicar tardiamente, por volta dos 40 anos de idade. Foram os latino-americanos os primeiros a escrever sobre ele, reconhecendo-o como poeta, a começar por um dos poetas mais expressivos, o nicaraguense Rubén Darío. Por tudo isso, o XV Encontro se converteu numa excepcional oportunidade para render um tributo ao poeta notável que ele foi. Na antologia intitulada Di tú que he sido estão publicados os poemas que eu selecionei de sua vasta obra poética. Com tal iniciativa fizemos com que a urbe salmantina cumprisse o que disse Unamuno em um de seus poemas dedicado a sua empedrada Salamanca: Di tú que he sido.

            EMFale-nos de suas raízes americanas. Qual a origem do seu sobrenome Alencart?

APA – Por parte paterna sou peruano de nascimento. O meu avô foi o espanhol espanhol Alfredo Pérez Fernández, da região de Astúrias. Ele, com um irmão, emigrou para a Amazônia. Depois de viver na Bolívia, resolveu entrar na  selva do Peru, enquanto seu irmão partiu para o Brasil. O nome do meu avô materno era Pedro Alencar, um cearense de Crato. Como tantos nordestinos, ele migrou para a Amazónia, seguindo o rastro da exploração da borracha. No entanto, não se dedicou a tal mister, mas ao comércio. Abriu um restaurante (cafetería) em Puerto Maldonado. Lá, ele se casou com uma peruana, a minha avó Carmen, nascendo desse casamento dois filhos: Rosa, minha mãe, e meu tio Pedro. O “T” no meu sobrenome foi o resultado de um erro do tabelião do Cartório de Registro Civil, cometido por ocasião da formalização do ato por minha mãe. Alguns anos mais tarde, quando eles perceberam, disseram ao meu avô para providenciar a retificação judicial, mas ele morreu logo depois e assim ficou meu nome. Muito bem, ocorre que me casei com uma Alencar, Jacqueline, descendente da linhagem boliviana da família, e agora, meu único filho, chama-se José Alfredo Pérez Alencar. Tudo, portanto, queda solucionado e, mais ainda, no Brasil poderão sempre chamá-lo de José Alencar.

EM Sabemos de seu talento e pendor pela literatura portuguesa. Sua forte ligação com escritores de língua portuguesa. Que escritores brasileiros foram marcantes na sua vida?

APA – Certo. Eu mantenho amizade com os notáveis poetas lusitanos António Salvado, Albano Martins, António Osório e Graça Moura Vasco, para citar apenas alguns. Do Brasil admiro Carlos Drummond de Andrade. Agora, desfruto da amizade com marcantes poetas, a exemplo de Reynaldo Valinho Alvarez, Álvaro Alves de Faria, Astrid Cabral, Carlos Nejar ou Ivan Junqueira. Eu também conheço pessoalmente ou por correspondência os poetas Ruy Espinheira Filho, Alexei Bueno, Paulo de Tarso Correia de Melo, Majela Colares, Ciro de Mattos etc. Nos últimos anos tenho recebido inúmeros livros dedicados por seus autores, que leio e, na medida do possível, traduzo ou escrevo sobre eles em minhas colunas semanais para o jornal El Adelanto, com mais de 130 anos de existência. No plano da narrativa eu tenho predileção por meus parentes distantes: José de Alencar e Rachel de Queiroz (que também pertence à linhagem dos Alencar). Além deles, leio Guimarães Rosa, minha amiga Nélida Piñon e o mais novo deles, João Gilberto Noll, que veio já se apresentou em Salamanca. A narrativa de François Silvestre de Alencar, um primo que descobri no Rio Grande do Norte, de certo modo, me sensibilizou muito, especialmente seu romance de memórias A Pátria Não é Ninguém. Tanto me marcou este livro que sobre ele escrevi 12 poemas que tocam de modo particular em temas universais, como a orfandade e a inveja. E que dizer da narrativa de meu grande amigo Cláudio Aguiar? Leio sua obra há 25 anos, a qual continua a me causar impacto, especialmente o seu grande romance Caldeirão. Porém, todo catálogo ou lista de nomes revela-se parcial. O que importa dizer é que o Brasil tem uma vasta literatura em todos os géneros.

            EMQue mensagem enviaria para os leitores brasileiros?

APA – Gostaria que soubessem que o Brasil faz parte de mim, é uma terra que sinto até no sangue e na alma; que não preciso vê-la como qualquer turista que a ela se dirige atraído pelos tópicos comuns. A sinto sempre e, a cada viagem íntima que realizo, ao ler ou traduzir seus autores, a percebo como um primeiro alumbramento. Digo-lhes, por fim, que sou um de seus descendentes, pois sou um Alencar que vive em feliz desterro em Salamanca, que elegi como minha Cidade-Pátria.

(*) Cláudio Aguiar, brasileiro, romancista, ensaísta e tradutor. Atual Presidente do PEN Clube do Brasil.

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Edir Meirelles

Entrevistando  Monique  Le  Moing

 

Tive a honra de conhecer a escritora francesa Monique Le Moing graças à boa iniciativa do escritor, membro da Diretoria da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro (UBE-RJ) e amigo Gilberto Mendonça Teles.

Esta escritora francesa é um nome a ser reverenciado por todos nós ligados à literatura brasileira e, por extensão, ao mundo literário lusófono. Pelos seus méritos, foi agraciada com a Medalha Jorge Amado da UBE-RJ. Monique é uma mulher ímpar que, conhecendo o Brasil nos idos dos anos 60, viveu no Nordeste brasileiro, se integrou em nossa problemática sóciocultural e fez amizades com representativos nomes da época. Mais tarde conheceu Plínio Doyle, responsável pelo seu engajamento definitivo na literatura de Língua Portuguesa.

Monique empolgou-se com o idioma de nossa gente, especialmente com as obras de Lima Barreto e dele traduziu nada menos que dez livros e outros tantos de autores contemporâneos. Em junho de 2010 quando, com outros escritores brasileiros, fomos homenageados em Paris, tive oportunidade de conhecê-la pessoalmente. Estivemos juntos em três momentos que resultou nesta entrevista.

EM – Ainda sob a emoção de conhecê-la pessoalmente e do nosso encontro no Quartier latin, este território sagrado dos intelectuais de Paris, quero entrevistá-la para a revista RenovArte da (UBE-RJ). Os brasileiros precisam conhecer melhor esta francesa dedicada à nossa cultura. Fale um pouco sobre Monique Le Moing. MLM – Nascida na Tunísia numa família de intelectuais e músicos, fiz estudos de letras. Já professora, me casei com um engenheiro agrônomo. Tive três filhos (e oito netos!). O meu marido sendo mandado ao Nordeste do Brasil para trabalhar na SUDENE, a família instalou-se toda em Recife onde ficamos dois anos, durante os quais ensinei francês na Faculdade de Filosofia e na Aliança francesa. Foi lá que encontrei os amigos caríssimos que me deram a paixão do Brasil e da literatura brasileira: a família Arraes, Ariano Suassuna, Gilberto Freyre… Fiz também parte da equipe de Dom Helder Câmara. Tudo isso me permitiu entrar e me integrar na vida dos Nordestinos. Foi um período muito enriquecedor e me ligou definitivamente com o Brasil.EM – Monique, a senhora possui uma trajetória cultural interessante, grande conhecimento da língua portuguesa e uma vivência invejável com os intelectuais brasileiros. Como começou este seu envolvimento com os brasileiros e com o idioma português? MLM – É que meu marido foi chamado novamente na Tunísia. Tentando encontrar uma pessoa para continuar falar português, fui à Embaixada do Brasil onde encontrei uma diplomata muito simpática… Sonia Doyle! Uma grande amizade nasceu (agora uma amizade de quarenta anos). Ela falou de mim ao pai (Plínio Doyle). Encantado em descobrir que uma francesa gostava tanto do Brasil, amiga de sua filha, me mandou pelo correio (!) todos os livros importantes da literatura brasileira (Machado de Assis, Raul Pompéia, Érico Veríssimo, José de Alencar, Marques Rebelo, etc.) E comecei a ler, ler, ler.Anos mais tarde, chegando com a família em Paris, foi imediatamente na Sorbonne e me matriculei na aula de Português onde (sorte!) tive Silviano Santiago como professor de literatura. Com ele descobri a obra imensa de Lima Barreto. Consegui obter um mestrado sobre Machado de Assis onde eu fazia o paralelo entre a visão do ciúme na obra de Machado e na de Alain Robbe-Grillet (mestre do “nouveau roman”). Trabalho muito bem acolhido na França. Imediatamente viajei para o Rio de Janeiro onde fui festejada e hospedada por Plínio Doyle (que, depois, me acolheu uma vez por ano durante quinze anos). Lá, assisti aos Sabadoyle, chegando a conhecer Carlos Drummond de Andrade, Joaquim Inojosa, João Alphonsus de Guimarães Filho, Homero Senna, Homero Homem, Américo Jacobina Lacombe… e Gilberto Mendonça Teles, o meu amigo. Quem tomava conta da biblioteca maravilhosa de Plínio, era Olympio José Garcia Matos com que descobri os lugares do Rio totalmente desconhecidos de uma boa parte dos cariocas (quem conhece o Bairro de Santa Genoveva? (Seria Santa Teresa!) cheios de lembranças de grandes escritores brasileiros… E Pedro Nava: “coup de foudre”. Decidi fazer o meu doutorado sobre as Mém?rias. Na Casa de Rui Barbosa, verdadeira “caverne de Ali Baba”, encontrei tudo o material para trabalhar e defendi a minha tese, cinco anos mais tarde na Sorbonne. À chamado da Nova Fronteira, fiz uma adaptação em Português dessa tese que virou “A Solidão Povoada”, obra editada em 1996 no Rio de Janeiro e presente na lista dos melhores livros do Natal 1996.EM – Em que momento se decidiu tornar uma tradutora de autores brasileiros?MLM – Entretanto, desde o fim do meu mestrado, tinha decidido traduzir Lima Barreto para dar ao público francês a jóia de descobrir essa obra riquíssima. Gostando muito de traduzir, continuei com Mário de Andrade, Afonso Arinos de Mello Franco, Josué Montello e vários escritores contemporâneos (todos editados em grandes casas editoras como Flammarion, Gallimard, Quai Voltaire, Le Rocher, Nadeau…).EM – Como se deu o seu primeiro contato com a obra de Lima Barreto?MLM – Como dizia, o meu primeiro contato com a obra de Lima Barreto foi com Silviano Santiago. Ele apresentou o autor de maneira tão comovente que me deu inveja de conhecê-lo mais profundamente. E como conhecer melhor um escritor senão o traduzindo?5 – Lima Barreto é um escritor tido como marginal, negro, pobre, desprezado pela mídia da época. No entanto, era um cultor do idioma francês. Como foi a recepção da obra deste brasileiro entre os intelectuais e os leitores europeus?MLM – Escolhi traduzir primeiro Recordações do Escrivão Isaías Caminha no momento em que a França festejava o bicentenário da Revolução (1989). Por quê? As ideias de Lima Barreto tinham profunda relação com as dos revolucionários franceses. A hist?ria deste jornalista rejeitado e as ideias veiculadas na obra me pareceram muito interessantes nesse contexto. O livro foi bem acolhido nos meios intelectuais e professorais mas não teve repercussões no grande público. Depois, traduzi Triste fim de Policarpo Quaresma e Vida e Morte de Gonzaga de Sá. Uma casa editora me contactou para traduzir os Contos. E conseguimos fazer uma edição rara de onze contos.6 – Que livro ou texto do autor de Triste fim de Policarpo Quaresma mais a impressionou? Por que?MLM – Primeiro Triste fim de Policarpo Quaresma. Mas gostaria muito de traduzir Cemitério do Vivos e o Diário do Hospício, essas obras sendo um testemunho forte e comovente da sorte dos pretos e dos mestiços na sociedade brasileira da época. Falando disso, assisti um dia de 1993, no Palácio da Praia Vermelha, a uma representação do “Cemitério dos Vivos” pela Companhia Ensaio Aberto. Uma das emoções mais fortes da minha vida. Chorei o tempo todo. Organizei também, em 1995, uma exposição chamada “Lima Barreto, l’homme de Rio”, na Embaixada do Brasil em Paris que fez muito sucesso. No próximo número da revista Sigila – cujo conselho editorial faço parte – orientado sobre as línguas segredas, vou apresentar a tradução de “O homem que falava Javanês”.7 – Gostaria que senhora falasse de outros escritores brasileiros e as obras que foram traduzidas e publicadas na França.MLM – Na França foram muito traduzidos Jorge Amado e Clarice Lispector. Um pouco menos Mario de Andrade, João Guimarães Rosa, Gilberto Freyre, João Ubaldo Ribeiro. Machado de Assis também, mas pouco (Dom Casmurro, o Alienista).8 – Está traduzindo novos autores de língua portuguesa?

MLM – No Momento, estou traduzindo uma tese de habilitação de mais de 600 páginas sobre a imigração dos judeus alemães antes e depois da Segunda Guerra Mundial. Um trabalho enorme, mas muito enriquecedor, duma jovem pesquisadora, Mônica Schpun.

9 – Qual a impressão que a senhora teve da revista RenovArte III da União Brasileira de Escritores?

MLM – Recebi com grande prazer a revista RenovArte. Ao meu ver, uma revista muito bem organizada, apresentando um vasto leque de expressões literárias, dando uma visão da riqueza criativa, do dinamismo e da modernidade da literatura brasileira atual. A parte “Poesias” me agradou particularmente.

10 – Para fecharmos esta entrevista, dê seu depoimento final.

MLM – Foi para mim muito agradável conhecer, em Paris, parte desse grupo simpático, cheio de energia e de vontade de trabalhar para ajudar e divulgar jovens escritores… e poder agradecer ao vivo o presidente da União Brasileira de Escritores, Edir Meirelles. Obrigado.


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