Ensaios

LIMA BARRETO E O RIO DE JANEIRO DOS SUBÚRBIOS

                                                                                               Edir Meirelles

 

Tive oportunidade de conviver com o Professor Henrique Miranda, que gostava de contar anedotas sobre o escritor Lima Barreto. Enfatizava o fato de estar sempre embriagado. O dito Professor era sobrinho Neto do também escritor Graça Aranha. Miranda conhecia bem as obras do tio e promovia admiráveis palestras sobre elas. Um grande orador que sabia cativar plateias.

Com o Professor Miranda e outros membros da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), íamos para o conhecido restaurante Vermelhinho bebericar o tradicional chopinho e deliciar com os tira-gostos da casa. Um clima de amizades inesquecíveis, onde o papo corria solto. Ali ouvíamos as histórias do doutor Barbosa Lima Sobrinho, da Irene Garrido Filha, de Modesto da Silveira e outros. Entretanto, o Professor Henrique Miranda, veterano jornalista e eterno Diretor da ABI era a figura dominante. Mordaz e com sua voz tonitruante, contou-nos mais de uma vez sobre os lautos almoços que o tio Graça Aranha promovia em sua residência. Ali eram servidos os melhores vinhos franceses a jornalistas convidados. E, entre os comensais estava Agripino Grieco. O mais temido, irônico e sarcástico crítico literário de então. Com ele não tinha meio termo: ou era oito ou oitenta. Era temido e endeusado a um só tempo, pelos intelectuais da época.

Sublinhava Miranda: terminado o almoço, o anfitrião lia trechos de sua nova obra aos convivas – Canaã. Era aplaudidíssimo por todos, inclusive Agripino.

Entretanto, dizia, quando o livro foi lançado o mencionado crítico escreveu matéria contundente, arrasando a obra de Graça Aranha.

A ressalva tem sua razão de ser nesta palestra.

Voltarei ao assunto ao final destas páginas.

** * * * *

Mas, falemos de Lima Barreto que é o tema desta tarde.

Na obra “O Rio de Janeiro de Lima Barreto” (1), coordenada pela saudoso Afonso Carlos Marques dos Santos, temos um texto em epígrafe, de Antônio Cândido, sobre Lima Barreto, onde registrou:

 “Para ele a literatura era uma espécie de paixão e dever. Era uma forma de existência, pela qual sacrificou as outras.” (1, pág. 17)

Esta data, 13 de maio, tem para mim dupla significação. Em primeiro plano se comemora a Libertação dos Escravos que, se não trouxe a redenção imediata dos negros no Brasil, pelo menos se extinguiu a escravidão oficial. Em segundo momento, comemora-se o nascimento de Afonso Henriques de Lima Barreto, lídimo representante de nossa cultura, defensor dos direitos dos afrodescendentes e um dos mais importantes entre os escritores brasileiros, quiçá, o mais respeitável. Hoje, Lima Barreto completaria 132 anos, pois nasceu no ano de 1881.

Tenho muito orgulho de estar aqui debruçado sobre a obra deste aguerrido escritor. Uma data marcante, não só pelo natalício do grande romancista, mas, também, porque sete anos mais tarde haveria de marcar o início da redenção do homem negro neste recanto das Américas, no Brasil. O menino, acompanhado do pai, assistiu aos festejos populares da Lei Áurea, sancionada no dia mesmo de seu natalício, 13 de maio. Jamais esquecera tal episódio histórico daquele dia e as celebrações subsequentes. Maravilhado, escreveria mais tarde:

“Jamais na minha vida vi tanta alegria!” (Idem, idem).

Estudou em bons colégios, mas quando ingressou na Escola Politécnica, já não contava mais com a ajuda do padrinho e amigo de seu pai, o Visconde de Ouro Preto.

Lima Barreto

“sentia-se constrangido entre os colegas abonados, Guilherme Guinle, Miguel Calmon ou Eugênio Gudin, estudantes ricos, que se vestiam no Raunier e usavam polainas brancas”. (1, pág. 18)

Monteiro Lobato em exaltação à obra de Lima Barreto, em carta ao escritor, declarou:

“Que obra preciosa estás a fazer! Mais tarde será nos teus livros e nalguns de Machado de Assis, mas sobretudo nos teus, que os pósteros poderão “sentir” o Rio atual com todas as suas mazelas de salão por cima e Sapucaia por baixo. Paisagens e almas, todas, está tudo ali”. (1, pág. 14)

Enquanto os amigos de Machado de Assis não aceitaram que “chamassem de mulato ao grande escritor”, pois no dizer de Joaquim Nabuco, “a palavra não é literária, é pejorativa”…  e reafirmava mais adiante – “Eu apenas vi nele o grego”. (1, pág. 21)

Em contraposição, Lima Barreto assume sua posição de “mulato” e investe contra Coelho Neto e o futebol elitista de então.

Francisco de Assis Barbosa, maior biógrafo de LB, em ensaio denominado  “O carioca Lima Barreto, sentido nacional de sua obra”, escreve com a autoridade acadêmica:

“Lima Barreto não admitiria semelhante discriminação. Sua ojeriza ao futebol tem no fundo a mesma justificativa. O que indignava Lima Barreto era verificar que os clubes de gente rica, aquinhoada com subvenções e outros favores oficiais, pretendessem transformar o futebol num esporte de elite, promovendo a distensão entre as classes sociais. Daí a Liga Contra o Futebol…” (1, pag. 21).

É bom lembrar que a literatura de Lima Barreto desperta cada vez mais a atenção dos estudiosos e suas obras são consultadas cada vez mais e constituem motivo de teses de mestrados, ensaios, etc. Em meu livro, Gigantes da Literatura e outros valores (6), registrei:

“O autor de Bruzundangas está em alta, crescendo em valor no reconhecimento de sua vasta obra, ainda não totalmente analisada. O grande escritor carioca radiografou, denunciou e diagnosticou os problemas nacionais. Pôs com precisão, o dedo nas feridas da sociedade da época. E mais, seus diagnósticos continuam válidos até os dias de hoje, para a maioria das doenças sociais apontadas há mais de três quartos de século”. (6, pág.23).

Socorrendo ainda em Assis Barbosa, veremos o esgrimista negro elegendo os subúrbios como cenário predileto de sua vasta obra. Diz o festejado biógrafo.

“O chapliniano Lima Barreto introduziu o povo em nossa literatura. Seu território não se limita a Botafogo e São Cristóvão, bairros da burguesia que eram frequentados pelos personagens de Machado de Assis. Na verdade, o romance machadiano não vai além do Andaraí.

 – E prossegue Assis Barbosa

“Sem a pretensão de traçar um paralelo entre os dois mestiços, a verdade é que a cidade de Lima Barreto se estende à área dos subúrbios, na apagada e vil tristeza dos pobres e dos humildes, que Machado Assis não penetrou”. (1, pág. 29).

Afonso Henrique de Lima Barreto foi um eterno namorado de sua cidade natal. Acariciou, pensou e repensou-a em todos os instantes de sua curta existência. Já se disse que nenhum planejador da Cidade Maravilhosa, poderá fazê-lo com eficiência, sem antes promover leitura minuciosa da obra do escritor do Encantado. Lima foi um estudioso e grande conhecedor da então Capital Federal.

Da obra Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá (2) pincei esta descrição minuciosa sobre o assunto, onde o romancista dirige um olhar amoroso e panorâmico sobre o Rio:

“Pense que toda a cidade deve ter sua fisionomia própria. Isso de todas se parecerem é gosto dos Estados Unidos; e Deus me livre que tal peste venha a pegar-nos. O Rio, meu caro Machado, é lógico com ele mesmo, como a sua baía o é com ela mesma, por ser um vale submerso. A baía é bela por isso; e o Rio o é também porque está de acordo com o local em que se assentou. Reflitamos um pouco.

E prossegue LB:

“Se considerarmos a topografia do Rio, haveremos de ver que as condições do meio físico justificam o que digo. As montanhas e as colinas afastam e separam as partes componentes da cidade. É verdade que mesmo com os nossos atuais meios rápidos de locomoção pública ainda é difícil e demorado ir-se do Méier à Copacabana; gasta-se quase duas horas. Mesmo do Rio Comprido às Laranjeiras, lugares tão próximos na planta, o dispêndio não será muito menor. São Cristóvão é quase nos antípodas de Botafogo; e a Saúde, a Gamboa, a Prainha graças àquele delgado cordão de colinas graníticas – Providência, Pinto, Nheco – ficam muito distantes do Campo de Sant’Ana, que está na vertente oposta; mas com o aperfeiçoamento da viação, abertura de túneis, etc, todos os inconvenientes ficarão sanados”. (2, pág 41/42).

E diria a ensaísta Paula Beiguelman, em O Rio de Janeiro de Lima Barreto:

“A simples referência ao aperfeiçoamento da viação, abertura de túneis, etc, já denota não decorrer de enfoque imobilista, mas se vincula a um respeito às premissas ecológicas fundamentais”. (1, pág. 44)

Temos aí os fundamentos da obra barretiana, o maior pensador da cidade, vislumbrando-a projetada no futuro, com espírito esperançoso da capacidade de planejamento urbanístico do povo carioca, quando assevera:

Todos os inconvenientes ficarão sanados”.

E LB não faz por menos, prossegue na descrição panorâmica da sua amada:

“Esse enxamear de colinas, esse salpicar de morros e o espinhaço da serra da Tijuca, com os seus contrafortes cheios de vários nomes, dão à cidade a fisionomia de muitas cidades que se ligam por estreitas passagens. A city, núcleo de nosso glorioso Rio de Janeiro, comunica-se com Botafogo, Catete, Real Grandeza, Gávea e Jardim Botânico, tão-somente pela estreita vereda que se aperta entre o mar e Santa Teresa. Se quiséssemos fazer o levantamento da cidade com mais detalhes, seria fácil mostrar que há meia dúzia de linhas de comunicação entre os arrabaldes e o centro efetivo da cidade”. (2, pág. 42)

Eis a beleza da cidade na felicíssima descrição barretiana. Um Rio multifacetado, multipolarizado. Plantado à beira-mar, limitado pelas montanhas com suas curvas generosas. Curvas, às quais aludiu mais tarde, e encantou o extraordinário arquiteto Oscar Niemeyer. Bairros com personalidades próprias, independentes, mas que se integram em harmonia com a natureza tropical bela e pródiga.

Mas Lima Barreto também fez alusões ao surgimento das favelas e palafitas que ainda hoje proliferam e faz do povo pobre, sujeitos às chuvas e trovoadas, pelas improvisações e pobreza das construções nas encostas ou alagados. O autor de Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá, não deixa por menos estas denúncias. Assim o romancista se exprime:

“A população, preguiçosa de subir construiu sobre um solo de cisco; e creio que Dom João veio descobrir praias e arredores cheios de encanto, cuja existência ela ignorava ingenuamente. Uma cousa compensou a outra logo que a Corte quis firmar-se e tomar ares solenes…

E prossegue adiante o defensor dos suburbanos e deserdados:

…”Ali, uma ponta de montanhas empurrou-as; aqui um alagadiço dividiu-as em duas azinhagas simétricas, deixando-o intacto à espera de um lento aterro”. (2, pág. 43)

Em Triste Fim de Policarpo Quaresma (3), Lima Barreto deixa seu testemunho de como o Rio de Janeiro foi surgindo sem uma diretriz, sem planejamento. As ruas abrolhando de qualquer maneira, praticamente ao deus-dará.  Muitas delas surgiram de estradas carroçáveis, serpenteando o contorno dos morros. Daí alguns nomes de ruas: estrada do Tindiba, estrada do pau-ferro, etc, todas com os traçados estreitos e sinuosos de antanho.

Assim registrou o escritor:

“Os subúrbios do Rio de Janeiro são a mais curiosa cousa em matéria de edificação de cidade. A topografia do local, caprichosamente montuosa, influiu decerto para tal aspecto, mais influíram, porém, os azares das construções.

Nada mais irregular, mais caprichoso, mais sem plano qualquer, pode se imaginado. As casas surgiram como se fossem semeadas ao vento e, conforme as casas, as ruas se fizeram. Há algumas delas que começam largas como boulevards e acabam estreitas que nem vielas; dão voltas, circuitos inúteis e parecem fugir ao alinhamento reto com um ódio tenaz e sagrado”. (3, pág. 73)

Não podemos olvidar que LB transita pelos subúrbios, quase sempre à pé. Um caminhante infatigável. Além de observador perspicaz. Estava atento a tudo em seu redor: comentando a arquitetura, o planejamento urbano, os problemas sociais, a política, etc. falando de arquitetura, conhece, critica e ironiza a existência dos chalés. Sobre eles, anota:

“O chalé, porém, é a expressão arquitetônica do subúrbio. Alguns proprietários, poupando a platibanda e os lambrequins, não esquecem de dar ao telhado do edifício o jeito característico e de rematar as duas extremidades da cumeeira com as flechas denunciativas. Em dias de névoa, em dias frios, se olharmos um trecho do alto, é como se estivéssemos na Suíça, na Holanda…” (2, pág. 85)

E o guerrilheiro do Encantado, como o definira Osman Lins, segue em suas caminhadas. Um andarilho incansável. Ia e voltava a pé ao trabalho no Ministério da Guerra, rodava o Rio de Janeiro de ponta a ponta, e não havia sapatos que durassem em seus pés de caminhante inquieto.

Em certo trecho do livro Recordações do Escrivão Isaias Caminha (4), o autor registra os passeios usando os bondes. Diz:

“Dei em passear de bonde saltando de um para outro, aventurando-me por travessas afastadas, para buscar o veículo em outros bairros. Da Tijuca ia ao Andaraí e daí a Vila Isabel; e assim passando de um bairro para outro, procurando travessas despovoadas e sem calçamento, conheci a cidade – tal qual, os bondes a fizeram alternativamente povoada e desprovida, com grandes hiatos entre ruas de população condensada, e toda ela, agitada, dividida, convulsionada pelas colinas e contrafortes da montanha em cujas vertentes crescera”. (4, pág.87)

Lima Barreto era um observador arguto e ao mesmo tempo um amorável da cidade do Rio de Janeiro e seus arrabaldes. Foi até as fronteiras do então Distrito Federal. Relatou com proficiência como surgiram os bairros dormitórios, que seria mais tarde Madureira, Marechal Deodoro, Realengo, etc, justificadas pelas crises residenciais e o caro valor dos aluguéis.  Em sua obra Clara dos Anjos (5) pincei esta pérola barretiana:

“’O subúrbio propriamente dito é uma longa faixa de terra que se alonga, desde o Rocha ou São Francisco Xavier, até Sapopemba, tendo para eixo a linha férrea da Central.

O autor de Bruzundangas se preocupava com todos os aspectos da política, dos costumes, da cultura em geral. Não há nenhum texto mais simbólico e caricatural de Lima Barreto que sua petição ao Congresso Nacional, na figura de Policarpo Quaresma. Assim inicia sua peça legislative:

“Policarpo Quaresma, cidadão brasileiro, funcionário público, certo de que a língua portuguesa é emprestada ao Brasil, certo também de que, por esse fato, o falar e o escrever em geral, sobretudo no campo das letras, se veem na humilhante contingência de sofrer continuamente censuras ásperas dos proprietários da língua”…

O autor lembra as frequentes críticas dos donos do idioma pelo mau uso que fazemos da língua cedida. O que diria ele se, curiosamente, ainda hoje, nós, de Pindorama e os donatários de além-mar, ainda não conseguimos a simples unificação ortográfica (pequeníssimas modificações, quase imperceptíveis) pelas barreiras xenófobas impostas pelos senhores do vernáculo lusitano.

Depois de outros considerandos, igualmente bem abalizados, segundo a ótica barretiana, o autor continua:

“Usando do direito que lhe confere a Constituição, vem pedir ao Congresso Nacional decrete o tupi-guarani, como língua oficial e nacional do povo brasileiro.”

Finalmente, Policarpo Quaresma assina a petição.

“P. e E. deferimento”. (4, pág. 48)

As críticas ao projeto foram contundentes umas, maliciosas, outras. Especialmente por parte dos pequenos e caricaturais semanários que fizeram troças e achincalharam “o pobre major”. O autor da petição, tantas fizera, que acabou taxado de maluco. Foi punido na repartição onde trabalhava.

Lima Barreto não foi apenas o escritor que amou a sua cidade, cantou suas belezas e suas mazelas. Soube dar voz aos suburbanos, aos desassistidos, aos marginalizados, aos sem teto, aos oprimidos em geral. Foi também aquele que soube pensar sua cidade, o seu país. Atacou sem piedade os corruptos e poderosos da época. Podemos exemplificar isto, mostrando a caricatura, sem retoques, do mais poderoso mandatário dos primeiros tempos da República, Floriano Peixoto. Caprichou na fotografia:

“Quaresma pode então ver melhor a fisionomia do homem que ia enfeixar em suas mãos, durante quase um ano, tão fortes poderes de Imperador Romano…

E, um pouco adiante, continuou com o retrato:

“Era vulgar e desoladora. O bigode caído; o lábio inferior pendente e mole a que se agarrava uma grande “mosca”; os traços flácidos e grosseiros; não havia nem o desenho do queixo ou olhar que fosse próprio, que revelasse algum dote superior. Era um olhar mortiço, redondo, pobre de expressões, a não ser de tristeza que não lhe era individual, mas nativa, de raça; e todo ele era gelatinoso – parecia não ter nervos.” (3, págs. 113/114)

Agripino Grieco, em sua obra Evolução da prosa brasileira (7), dez anos após a morte de Lima Barreto, quando já entrava no ostracismo, escreveu matéria de grande repercussão:

“a esse mestiço morto aos quarenta anos, carapinhento e malvestido, sem medalhas e títulos acadêmicos, forçoso é que retornem os nossos prosadores quando quiserem ultimar o grande romance realmente brasileiro”. (7, pág.??)

Incluo-me entre os admiradores de Lima. Durante quatro anos promovi anualmente a Semana Cultural Lima Barreto. Ora no Sindicato dos Escritores do Estado do Rio de Janeiro, ora na sede da Associação Brasileira de Imprensa. Um escritor que é um divisor de águas na literatura brasileira. Um homem honradíssimo, de origem humilde, preto, numa época em que o racismo se manifestava bem mais contundente que nos dias atuais. Daí as dificuldades que enfrentou.

Volto agora aos vizinhos suburbanos e escritores. Sim, Agripino era do Méier e LB residia no Encantado. Dois bairros siameses, apenas separados pela estrada-de-ferro. Consta que o escritor do Encantado teve apenas uma homenagem em sua curta, mas fértil existência – um almoço oferecido pelos seus amigos jornalistas em um restaurante do Catete.

Certa ocasião, debruçado sobre sua obra, deparei-me com uma crônica sua sob o título O meu almoço. Li com enorme curiosidade. Iniciava assim o cronista:

“Passada a carraspana….

Ora, em se tratando de Lima Barreto, não poderia ser de outra forma. Deve ter sido uma grande farra entre os convivas. Descreve o almoço com sinais de alegria, riqueza de detalhes e depois menciona nominalmente os amigos que lhe proporcionaram o banquete. Para minha surpresa, entre os pagantes estava o próprio Agripino, frequentador dos lautos almoços de Graça Aranha.

Disse, inicialmente, que retornaria ao tema. Vejam senhores, o mesmo Agripino que desancou a obra Canaã, é o mesmo crítico que, dez anos após a morte de LB, quando o escritor já caia no esquecimento, publicou matéria elevando o autor de Recordações do Escrivão Isaias Caminhaàs alturas. A imprensa, os amigos e as editoras acorreram a desentocar seus textos. Era a redenção do grande autor carioca. Desde então Lima Barreto não parou mais de crescer em importância em nossos meios culturais. Trabalhos, ensaios, pesquisas foram e continuam sendo feitas sobre a obra deste grande brasileiro.

 

Vila de Noel, RJ, 13 de maio de 2013

                                       Edir Meirelles

 

Bibliografia:

1 – O Rio de Janeiro de Lima Barreto – Vol. I – RIO Arte Edições, 1983. Rio, RJ. Coordenação de Afonso Carlos Marques dos Santos.

2 – Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá –  Lima Barreto, Livraria Garnier, Rio de Janeiro, RJ – 1990.

3 – Triste Fim de Policarpo Quaresma – Lima Barreto. Editora Ática, São Paulo, SP. 1983.

4 – Recordações do Escrivão Isaias Caminha – Lima Barreto. Editora Brasiliense, 6ª ed. São Paulo, Brasil. 1976

5 – Clara dos Anjos – Lima Barreto. Editora Ediouro, COLEÇÃO PRESTÍGIO. Rio de Janeiro, RJ.

6 –Gigantes da literatura e outros valores  -Edir Meirelles. Editora Kelps, Goiânia, GO – 2012.

7 – Evolução da prosa brasileira – Agripino Grieco.

 

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MARTINHO DA VILA: Embaixador da lusofonia

Edir Meirelles (*)

“Este é o mistério da arte e do artista: o conhecimento

e a sabedoria como frutos da intuição”.

Israel Pedrosa – In Prefácio de Kizombas, andanças e festanças.

Por vezes fico a imaginar quantos talentos se perderam por estes brasis afora. Quantos cientistas deixaram de contribuir para o progresso do Brasil e da humanidade, quantos músicos e compositores deixaram de alegrar nossa gente, quantos professores foram subtraídos das salas de aula. Tudo por falta de escolaridade. Enfim, quantos brasileiros foram ceifados obscuros pela epidemia do analfabetismo, esse cancro social. Milhares de jovens abandonados à própria sorte, sem a mínima chance de contribuir para o progresso científico, tecnológico ou cultural do país.

Sabemos que, salvo raríssimas exceções, é humanamente impossível alçar o vôo do conhecimento enciclopédico sem acesso pleno à escolaridade.

Martinho da Vila é uma dessas raridades. Conseguiu sair do “gueto” graças ao seu talento invulgar, à sua força de vontade, seu tirocínio próprio dos mestiços de Pindorama. Nascido filho de pobres lavradores arando a terra alheia, sem perspectivas aparentes, sem condições de matricular os filhos numa escola digna deste nome. A saga deste artista e escritor não é menor que a de Lima Barreto, não por acaso patrono do Sindicato dos Escritores do Estado do Rio de Janeiro. Nem fica abaixo das de Machado de Assis, José do Patrocínio ou Cruz e Souza. Poderia citar inúmeros exemplos de similaridade na ascensão sócio-cultural de nosso meio, especialmente entre os negros e mestiços. Porém, vou me restringir para ficar com o nome do ilustre  homenageado.

O livro de Martinho da Vila – Kizombas, andanças e festanças (¹), mostra os caminhos percorridos pelo autor, sua trajetória de luta e seu trabalho em favor da comunidade negra, pobre e marginalizada habitando, em sua maioria, os morros e favelas do Rio de Janeiro. Dá dicas valiosíssimas aos iniciantes no mundo carnavalesco e da organização da Escola de Samba Unidos de Vila Isabel. De maneira simples mas, didática revela a riqueza organizacional e o envolvimento comunitário na maior festa popular do Brasil – o carnaval. Angola foi eleita a sua pátria originária, com fortes razões, pois aquele país africano é um retrato sócio-cultural do Brasil e vice-versa. Em Kizomba fica patenteada sua impressionante capacidade de interagir com a comunidade dos povos de Língua Portuguesa. E o faz de um modo muito peculiar. Sua obra está impregnada de brasilidade e das qualidades e defeitos da comunidade lusofônica.

A expressão Quizomba é usada com tanta força que se incorpora definitivamente ao nosso idioma. Representa o estado de espírito e a manifestação livre do afro-descendente nas terras do semba, do samba, da capoeira, do candomblé, do vatapá, do caruru, do mungunzá e do carnaval. Inúmeros vocábulos trazidos pelos escravos, são usados pelo autor que, em certo trecho reclama e pleno de razões que o termo axé não estava dicionarizado.

Pois bem, o Dicionário Houaiss de língua portuguesa (²) agora registra:

AXÉ – 1 – força sagrada de cada orixá, que se revigora, no candomblé, com as oferendas dos sacrifícios rituais. 2 – Saudação votiva de felicidade – entre outras definições.

O Feiticeiro da Vila é um escritor engajado, aborda as questões do nosso tempo e esbanja talento ao falar do racismo no Brasil e no mundo. Seu linguajar simples, didático e inteligível coloca a temática ao alcance do mais comum dos mortais. Traz à tona os movimentos negros que antecederam a libertação dos escravos. E num lance de fina ironia sobre a Lei Áurea assevera que o “único brilho que teve foi o da caneta que cintilava no Ato da Assinatura nas mãos da brasileira e carioca de São Cristóvão” – a Princesa Isabel.

 Além das virtudes intrínsecas e literárias, Kizomba é um grito em favor da cidadania e inclusão do negro brasileiro. Denuncia o racismo secular e com veemência ressalta os valores e os motivos porque negros e mestiços devem se orgulhar de suas origens e da contribuição na formação cultural dos brasileiros. Mergulha em nossas raízes africanas, consciente de que um povo necessita se situar na história e conhecer suas origens. Resgata a cultura, os valores e a identidade daqueles que foram arrancados da condição de indivíduos livres, trazidos aprisionados nos navios negreiros e vendidos como escravos em terras brasílicas. Conscientemente Martinho  tece a rede da solidariedade e da união destes povos irmãos. Deixa patente que as raízes culturais e o português – nosso idioma comum – constituem as chaves mestras da nacionalidade.

Merece destaque o seu profundo amor à célula mater de qualquer nação – a família. Mas acima de tudo, saudamos sua visão cósmica abrangente que ultrapassa a nacionalidade e extrapola na Comunidade dos povos unidos pelo idioma de Camões, Fernando Pessoa, Pepetella, Mia Couto, Guimarães Rosa, etc., como se fora uma grande família alicerçada na lusitanidade.

Finalizando, este feiticeiro da Vila, é um artífice invulgar na consolidação da Comunidade dos Povos de Língua Portuguesa. Não bastasse sua obra literária, é de justiça mencionar também suas meritórias composições musicais, e aqui me detenho especialmente no CD LUSOFONIA – uma obra de arte (com título e textos felicíssimos), destinada à integração dos povos de fala lusitana. Segue pequeno trecho da canção que dá título à obra:

 

“É sonho ver um dia

A música e a poesia

Sobreporem-se às armas

Na luta por um ideal

E preconizar

A lusofonia

Na diplomacia universal”.

(Martinho da Vila e Elton Medeiros).

 

Sua literatura e composições mesclam a cultura popular dos guinéenses aos costumes dos angolanos; das peculiaridades dos moçambicanos ao heroísmo dos timorenses do leste; da linguagem crioula dos caboverdeanos à riqueza cultural dos brasileiros; à capacidade de miscigenação e unicidade dos irmãos lusitanos. Por tudo isso, por suas viagens freqüentes aos países lusofônicos e muito mais, este aficionado da arte, escritor, poeta, compositor e cantor merece o epíteto de Embaixador da lusofonia.

 

Rio de Janeiro, RJ, 13 de junho de 2004.

 (*) Poeta, contista, ensaísta e romancista.

(¹) Editora Record – 2ª edição. Rio de Janeiro – 1998.

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Da Chapada do Araripe ao Minas Gerais

por Edir Meirelles        

Já conhecia Audálio Gomes Alves de outros carnavais. Especialmente de nossos saraus poéticos pelo Rio de Janeiro afora. Um extraordinário poeta, que se revela especialmente em As Audalianas. Agora tenho em mãos Do Gurupés à Mezena. São contos insólitos, bem humorados principalmente o estoque das fantásticas narrativas náuticas que tomam conta  do repertório do livro. Embora haja altos e baixos nesta obra, Audálio se revela um escritor de primeira linha.  O audaz timoneiro coloca o leitor a bordo de uma belonave para uma viagem mar a dentro. Dá para sentir a grandiosidade do oceano em contraste com a pequenez do barco e a engenhosidade humana. O conto “O Rei do Terreiro” é um dos que sobressaem. Urdido com competência de mestre, com palavras sopesadas dão mostra da capacidade deste argonauta intrépido (permitam-me a redundância) vindo dos ares cearense. As facilidades com que conta histórias de marinharia são dignas de registro. Num estilo simples, coloquial e agradável, deixa o leitor extasiado e boquiaberto. O conto “A Noivinha” então é por demais interessante. Audálio traça o perfil dos nordestinos que se desgarram do solo calcinado em função da seca que assola periodicamente o sertão. Tomam o rumo do sul maravilha na busca de dias melhores. Retrata fielmente a trajetória dos irmãos que deixam suas saudades no Nordeste, em especial no Ceará com destino à cidade grande – São Paulo e Rio de Janeiro. Freqüentemente se encaminham para os mistérios do mar. Tornam-se adeptos de Netuno e transformam-se em marinheiros afoitos e inigualáveis. Apaixonam-se pelos lugares, apenas por ouvir falar e lá vão constatar a veracidade, como se pode inferir do conto “O Gigante que Dorme”

Quinco… não acreditou no que o médico dizia, pois, com certeza não existia gigante nem serra nenhuma que se comparasse àquela chapada, moldura natural do Vale do Cariri.

A narrativa é gostosa, o linguajar escorre límpido, saudável como água de coco, misto da fala nordestina – lembrando José Lins do Rego – paidégua do modernismo regional, e a fala típica da marujada, num feliz casamento em que Audálio é um mestre. Isto pode ser comprovado em qualquer uma das histórias. Esta evocação do passado e o retorno às origens é parte intrínseca do homem ligado sobremaneira às suas origens. No dizer de Staiger, “é uma volta ao seio materno no sentido de que tudo ressurge naquele estado pretérito do qual emergimos.” No conto mencionado, o autor se apodera de um dos totens mais significativos para o carioca e os brasileiros em geral – o gigante deitado – constituído da pedra da Gávea e o maciço montanhoso que emoldura o Rio de Janeiro. Como outrora impressionara os escritores Gonçalves Dias e Lima Barreto, também Audálio Gomes Alves descreve o gigante de pedra, agora desfigurado, faminto e adoentado, assolado pela poluição, vítima do desmatamento desenfreado, coberto de mazelas, ocupado em suas encostas pelos favelados e desassistidos, numa metáfora significativamente profunda da degradação social de legiões de brasileiros. Audálio, Leão Marinho da melhor estirpe, também sabe usar o linguajar das noites e dos boêmios dos subúrbios cariocas. Nesses contos, a alma e a essência da malandragem sobressai de forma expontânea e gostosamente bem distribuídas. Ali o contista esbanja harmoniosamente a gíria das biroscas e a fala entremeada de símbolos de causar inveja, tal como acontece no conto De Volta à rua do Rebuliço:

Kid Tiroteio, deu a do santo, em seguida molhou a garganta com o primeiro gole. Depois tomou mais uma para lavar as serpentinas. Feito o aquecimento do sistema propulsor, suplementou direto a fim de botar o condensador logo a nível, para assim obter um vácuo perfeito, como acontece nas máquinas de um navio.

Do Gurupés à Mezena é uma obra telúrica, rica em metáforas significativas, digna dos grandes cearenses – de José de Alencar à irretocável Raquel de Queiroz, passando por Moacir C. Lopes –  enraizada nos costumes e na historiografia de sua gente. Evocadora de vultos do passado e simultaneamente denunciadora das mazelas do presente. Audálio cavouca nas origens, em busca de preciosidades e consegue resultados com enraizamento em profundidade. Isto pode ser lido em
A Cidade que sumiu do Mapa:

Os Congos e Reizados cantavam e dançavam no pátio da igreja, louvando a Nossa Senhora dos Milagres. Ali estavam também Zé Leonardo, com seu zabumba, acompanhado de pífaros, dando um toque de tradição à cantoria. Da Cruz das Almas vinha o canto lúgubre dos Penitentes que, empapados de sangue, nem por isso deixavam de martirizar-se, aplicando nas costas suas afiadas “disciplinas”, como remição dos seus pecados.”

Os contos desse arrojado cearense possui a grandiosidade da Chapada do Araripe, a ousadia pioneira da tripulação do porta-aviões Minas Gerais e a epopéia dos marinheiros embarcados efundeando nos portos do Brasil e do mundo. Do Gurupés à Mezena é uma obra de leitura amena e agradável. Atrai o leitor do princípio ao fim.

Parabéns à ZMF Editora! Parabéns leitores!

 Edir Meirelles

 

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