Fortuna Crítica

Um pouco da fortuna crítica de

Edir Meirelles

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  Ensaio da Professora Darcy França Denófrio
                    *Universidade Federal de Goiás

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“EDIR MEIRELLES E O MÁXIMO DO MÍNIMO”


           Darcy França Denófrio    e    Edir Meirelles

Edir Meirelles é poeta, contista, romancista e intelectual ligado a várias instituições culturais, principalmente fora de Goiás, um escritor que honra o nosso Estado em suas diversas áreas de atuação.

Recebi, há algum tempo, sua obra Aldravias a cinco vozes, realizada em parceria com outros poetas.  Edir abre o livro com uma nova modalidade de poesia. Mas antes de falar sobre ela, gostaria de fazer um retrospecto na obra poéticadeste autor goiano, há muito radicado no Rio de Janeiro.

Em 1993, Edir Meirelles lançou, pela editora Litteris, do Rio de Janeiro, sua primeira obra poética, Poemas contaminados, radicalmente vinculada a Goiás, embora já estivesse residindo no Rio. Inicia-se com o poema “Réquiem para meu povo”, um longo poema pleno de solidariedade a seu povo, e também de protesto pelo “descaso das autoridades” em permitir, por negligência, um desastre nuclear de proporções inimagináveis na capital goiana. Este que o poeta acabou registrando, em versos, no calor da hora, “antes que o tempo passe tudo a raso”, nas palavras de Cora Coralina.

Percebe-se a vocação épica dessa peça desde o início da leitura, uma vez que o poeta narra a história de dor e discriminação vivida pelo povo de Goiás e, mais agudamente, pelos habitantes de Goiânia, cidade onde o poeta viveu em local próximo à Rua 57, o palco da grande tragédia. Ele anuncia o ocorrido em tom épico: um “holocausto dantesco moderno”. Recorrendo ao mito grego, o poeta refere-se à liberação, entre nós, da “força maligna do Césio-137 de sua caixa de Pandora”, fato que resultou em vivo impacto sobre o nosso meio ambiente, nossa gente, nossa economia e tudo o mais que se referia a Goiás, à época. A caixa de Pandora, segundo a mitologia, liberou todos os males, somente restando, lá no fundo, a esperança. Todavia o poema, concebido em tom escatológico, termina com um sentimento não de esperança, mas de grande dúvida por parte do poeta quanto ao futuro.

Apesar do tom épico, nessa peça a voz lírica não narra com o distanciamento que o épico requer. Sofre com o seu povo. Condói-se de Leide das Neves, a menina que se erigiu em símbolo da tragédia, o cordeiro puro e inocente aliciado pela luz azul do Césio, sacrificado pela “nova Besta apocalíptica”, na voz do poeta. Condói-se das vítimas fatais. Solidariza-se. Não há, portanto, a isenção requerida pelo gênero.

Emil Staiger teoriza que, no lírico, o sujeito volta-se para o polo interior. Por isso, no gênero lírico o “eu” funde-se com o objeto, não havendo distanciamento entre o “eu lírico” e o objeto contemplado. Já no épico, o sujeito da enunciação (um narrador) volta-se para o exterior, mantendo a inalterabilidade diante dos fatos narrados. Neste caso particular, Edir Meirelles fica equidistante, ou seja, posiciona-se entre o épico e o lírico. Ele constrói, portanto, um epilírico.

Como estudiosa de longa data da literatura goiana, descubro algo surpreendente. Nenhum poeta, entre nós, mesmo os mais engajados da época, registrou de forma corajosa, como o goiano Edir Meirelles, esse que foi um dos maiores acidentes nucleares de nosso tempo. Nenhum deles deixou registrado esse momento de dor e tristeza no seio da família goiana: o acidente com o Césio-137.

Nenhum deles foi um equívoco que trato de reparar nesta segunda versão. Brasigóis Felício, até a sua obra Hotel do tempo, apresentava uma poesia eminentemente social. Mas talvez fosse um dos mais engajados naquele momento histórico do Césio-137, embora já caminhasse noutra direção, quando resgatou, quatro anos depois, dois poemas sobre o acidente radioativo na obra O rosto da memória, de 1991: “A dança do césio” e “A dança da vida”. Na verdade, o substrato social jamais abandona a sua poesia. Dela desaparece apenas a exclusividade.

Para constatar como a memória nos pode trair, embora eu tenha escrito um longo ensaio denominado “Brasigóis: o mesmo tão diferente”, em minha obra Hidrografia Lírica de Goiás, sobre a trilogia O rosto da memória, de 1991 (obra que acolhe os dois poemas), Árias do silêncio, de 1992 e O tempo dos homens sem rosto, de 1993, não me lembrei dos poemas supracitados. Talvez porque Brasigóis Felício já estivesse “liberto/ da floresta de ismos”. Embora eu até cite em meu ensaio o poema “A dança do césio”, dedicado exatamente à menina Leide das Neves, não me ocorreu, ao fazer o ensaio de Edir, os dois poemas que remetiam ao Césio-137. Mas não somente ao Césio. Brasigóis agora é o mesmo e outro bem diferente ao produzir uma nova lírica na trilogia mencionada. Seu grande anelo, no momento, é alcançar a plenitude do Ser ou “os cumes do Ser”, como diz liricamente. Na verdade, em meu trabalho, eu procurava o outro Brasigóis, aquele que guardava afinidade com os grandes iniciados, o poeta em busca de transcendência e que emerge num crescendum de obra para obra, na referida trilogia. Ou seja, o poeta agora em busca de Ser e da humanidade do Homem. Tanto que no poema a “A dança do césio”, o poeta lembrará, num jogo de palavras entre César e Césio, que “não fomos vítimas/ de César, Hitler/ Stálin. Admite que ainda há tempo para Ser. Sugiro a leitura dessa trilogia, mencionada na bibliografia. É um dos altos momentos da lírica de Brasigóis.

À época, além de Edir, mas expressando-se em outra forma de arte e igualmente atento ao seu momento histórico, não podemos omitir o nome do famoso artista plástico Siron Franco, cuja obra em técnica mista, denominada Rua 57, ilustra a capa do livro de Edir Meireles. Em artigos de jornais, de que falaremos depois, podemos citar o escritor José Mendonça Teles e o médico e escritor Dr. Heitor Rosa, Professor aposentado da Faculdade de Medicina da UFG.

O livro de Edir Meirelles cai em minhas mãos exatamente quando se completam 25 anos dessa tragédia, relembrada pelos meios de comunicação em Goiânia, sobretudo pela TV. Esta expôs de forma crua os fatos aos olhos dos telespectadores, por meio de documentários da época e de entrevistas contundentes realizadas com os que sobreviveram ou até mesmo com os que ajudaram, por ignorância, a desencadear esse horror que, à época, mais se procurou aqui ocultar do que revelar, talvez por envolver autoridades que estiveram no poder imediatamente antes do ocorrido. A expressão “descaso das autoridades” é quase um refrão em vários dos Poemas contaminados, de Edir Meirelles.

O poeta expõe os fatos de forma quase escancarada. Se mais não os desvela é porque a linguagem poética não o permite, sob pena de se desvirtuar. Mas para quem sabe ler, ele deixa até mesmo o nome de um dos “responsáveis locais” (expressão sua), talvez o responsável-mor à época, anagramatizado no início do poema.

Após a folha de rosto, em três páginas consecutivas, a voz lírica, à guisa de irônicas epígrafes, vai deixando seu sentimento de indignação (vivo à época) diante da discriminação que o povo goiano, especialmente o goianiense, sofreu na carne. Note-se que ele publica em 1993, e o acidente havia ocorrido em 1987, portanto seis anos antes, quando, de fato, foram concebidos os poemas de protesto. E ele próprio, que havia morado próximo à rua do sinistro radioativo, mas já residia então no Rio de Janeiro, também não foi poupado à época, como se verá. Eis o que se lê nessas páginas introdutórias. Cada barra é o limite do fragmento que contém cada uma das três páginas: Ao folhear este livro, use luvas antirradioativas / e… máscaras adequadas./ O perigo radioativo é invisível, inodoro e insípido. Daí as devidas precauções”.

A notícia dessa discriminação pode ser lida, em rodapé, ao fim do primeiro poema da primeira seção, homônima do título do livro, denominado “Réquiem para meu povo”, escrito, como já se disse, à época do infausto acontecimento. O poema se estende por seis páginas e um terço, pois afinal é um epilírico. No rodapé, lê-se que o autor goiano se considerou “contaminado e discriminado” pelos organizadores da Feira da Providência, ocorrida em novembro de 1987, quando o acidente nuclear havia acontecido, entre nós, a 13 de setembro do mesmo ano. Nessa ocasião, ele distribuiu fragmentos do poema mencionado e, “de máscaras, lavrou o seu protesto”, como lá informa. Chegou a aparecer no jornal O Globo, revelando a sua indignação.

Eis o mínimo que encontramos, depois de muitas pesquisas, para contextualizar os fatos e o epilírico de Edir Meirelles. O escritor goiano José Mendonça Teles dá notícia dessa discriminação, no momento em que ocorre a Feira da Providência, criada sob inspiração da generosidade de Dom Hélder Câmara. Goiás, por meio de seus artistas e artesãos, foi mesmo impedido de participar, conforme artigo publicado pelo referido escritor, em O Popular, a 06/12/87, sob o enfático título “Não à discriminação”. Mendonça Teles, o que, entre nós, mais registrou o fato e sua indignação nos jornais, fala rapidamente ede modo lírico sobre o césio num único poema, “Quando os flamboyants florescem”, título homônimo de uma obra sua publicada em 1998. Expressa-se de modo irônico em o “Silêncio do Césio”, um texto de curta extensão que integra suas pequenas crônicas na obra que ele chamou de Memória curta e que abrange o lapso de 1982 a 2011. Aí ele diz que vai deixar de escrever aos escritores de fora, porque sabe do destino das cartas procedentes de Goiás. No entanto, ele escreve de modo contundente nos artigos de jornais, “escritos a sangue quente”, conforme Adovaldo Sampaio, prefaciador da obra Em defesa de Goiânia, mencionada na bibliografia, ao fim. Mendonça Teles foi de fato um obstinado, pela vida a fora, na defesa dos patrimônios culturais de Goiânia e de Campinas, ou Campininha, como amorosamente ele escreve. Morou, nesse hoje bairro de Goiânia, por longo tempo.

Em dois artigos publicados Em defesa de Goiânia, Mendonça aponta o dedo para o governador que perpetrou “O crime da Santa Casa”, nome do segundo de seus artigos, onde faz uma crítica verdadeiramente corajosa, saída no jornal O Popular a 23/2/86. A primeira, sob o título de “A demolição da Santa Casa”, foi estampada em O Popular a 05/01/85. A Santa Casa, de fato um patrimônio cultural, foi demolida pelo governador Íris Rezende Machado. Sua intenção era ali construir o Hospital do Servidor que, muito mais tarde, foi construído em outro local, já pertencente aos próprios servidores. Demorou tanto tal decisão que o “buraco” da Santa Casa foi batizado com o nome de “Buraco da Saúde” e criou as condições para que acontecesse esse grande sinistro por ter ali ficado tanto tempo um aparelho com uma cápsula radioativa, abandonada a um trágico destino nas mãos de catadores de lixo.

O governador HenriqueSantillo herdou um problema para administrar, talvez o maior que um político de Goiás já tenha enfrentado na Capital de Goiás. Pedindo ajuda ao povo goiano, ele disse: “Este é um problema acima dos partidos e das diferenças políticas e ideológicas”. Goiás sofria uma discriminação cruel. O governador Santillo fez inúmeras gestões no sentido de aplacar essas discriminações: dentro e principalmente fora de Goiás. Enfrentou Hebe Camargo na televisão, a dama que noticiava que Goiânia estava “destruída, arrasada, inabitada”. As revistas Isto é e Veja davam manchetes extremamente sensacionalistas, obrigando o governador a promover encontro com seus responsáveis, dando explicações e pedindo tolerância e compreensão para os fatos.

Tal discriminação, além de atingir drasticamente pessoas e vários setores da economia goiana à época, como nossos produtos agropecuários e industriais, atingiu, inclusive, um importante evento na Universidade Federal de Goiás. Ou seja, atingiu a própria cultura. A professora Vera Tietzmann Silva em sua obra recém-lançada, 50 anos de Letras na UFG: um projeto em construção – Memória e história, depois de falar do grande acidente radioativo de Chernobyl, de 1986, afirma que esse acidente, “um ano depois teve o seu contraponto em escala menor no acidente com o Césio 137 – ocorrido não numa enorme usina nuclear, mas numa casa modesta de catadores de lixo no Bairro Popular, na região central de Goiânia”.

Ela afirma que, na Rússia, o acidente a princípio foi camuflado. Havia razões ideológicas, uma vez que ele poderia ser usado como contrapropaganda. Afirma ainda, e nesse particular discordamos um pouco, que “O acidente de 1987, em Goiás, também demorou um pouco a ser avaliado em sua verdadeira extensão, não exatamente por questões ideológicas, mas porque, de fato, à primeira vista parecia trivial. Hoje se sabe que foi o terceiro maior do mundo, Chernobyl continua sendo o primeiro”. Ousamos afirmar que as autoridades locais foram negligentes e que o acidente não ocorreu num universo tão inocente assim. Sabia-se da possibilidade de ele acontecer. E hoje já se sabe, por meio de trabalhos acadêmicos e outras fontes, que o acidente com o Césio – 137 foi o maior acidente radioativo do Brasil e o maior do mundo, ocorrido fora de usinas nucleares.

Agora o mais importante, o depoimento de Vera Maria Tietzmann Silva acerca do reflexo desse acidente no então Departamento de Letras, hoje Faculdade de Letras da UFG.

Nas atividades rotineiras do Departamento de Letras, o acidente do Césio também fez seus estragos, pois frustrou na última hora a realização de um evento de grande porte, que se encontrava prestes a acontecer. Tratava-se do Seminário Nacional da Associação Brasileira de Professores Universitários de Inglês (Abrapui), que seria realizado pela primeira vez em Goiânia, reunindo docentes do Brasil inteiro. Tudo estava preparado […]. Em 13 de setembro, a poucos dias do início previsto para o seminário, aconteceu o acidente. Assim que a notícia saiu na mídia, o presidente da Associação ligou de São Paulo cancelando o evento.

O lamentável a registrar é que os goianos e, por extensão Goiás, foram ficando com um sinal ou marca que, uma vez mais, os discriminava. O que se soube nos bastidores é que os docentes convidados, numa espécie de efeito dominó, foram declinando do convite. O Encontro, naturalmente, não ocorreu.

Dr. Heitor Rosa, médico e também escritor, relata – num contundente artigo no jornal O Popular, mais precisamente a 08/11/87, denominado “Nós de Goiânia” –, a perplexidade e revolta de nossa gente diante do preconceito nacional para com os goianienses. Seu texto é uma peça verdadeiramente antológica, que fala do brio de nossa gente e de como se reergueu diante das ações externas que tentavam, lá fora, tirar proveito econômico e outros da “contaminação generalizada”. Bem mais tarde, numa carta ao leitor, de 22/05/92, ele relembra esse seu artigo e agradece a Ana Botafogo por seu gesto de solidariedade em não cancelar o compromisso de aqui dançar, mostrando ostensivamente seu apoio aos goianienses. Ele afirma ter sido ela a única a romper a solidão que a sociedade nacional nos impunha à época.

Também o renomado escritor Miguel Jorge, em seu romance Pão cozido debaixo de brasa, faz menção ao Césio-137, em seu caso, à “luz azul do Césio da fé”, mas seu alvo era e é estritamente estético, e o elemento nuclear (e lembre-se de que Césio ou Caesium, em latim, significa céu azul) assume um sentido simbólico, dentro de uma obra milenarista, que aponta para um mundo melhor. A intenção de Miguel Jorge, nesse caso, não é o protesto, embora tenha escrito obras claramente engajas, de compromisso social.

Edir Meirelles capta, via lírica, as minúcias do acidente nuclear, nomeia as vítimas fatais (com prenome e nome de família), registra dolorosos problemas, tais como a localização do lixo atômico (nenhum lugar de Goiás desejava a sina de receber esse lixo (e lembrar que também quiseram nos impingir o lixo atômico de Angra dos Reis); o enterro das vítimas, os carros de chumbo, tumbas de concreto e chumbo… Isto sem registrar a discriminação que as vítimas que foram a óbito tiveram de sofrer (cemitério algum as queria), havendo mesmo, no cemitério que acolheu as vítimas fatais, e no momento mesmo em que elas desciam ao local do último repouso, manifestações de repúdio por parte dos donos de jazigos que ali tinham seus parentes sepultados. Dolorosas minúcias são reveladas agora, depois de 25 anos passados, fatos comoventes que os jornais nem sempre divulgavam à época, talvez (ou com certeza) por razões até mesmo de ordem política. Certamente, uma das mais drásticas e desumanas manifestações de repúdio vem de um depoimento de Brasigóis Felício, poeta e também jornalista atuante à época: aquela do apedrejamento da urna funerária de Leide das Neves, ato incitado por um vereador de Goiânia naquela ocasião e que depois ocupou cargos mais altos. Leide das Neves, foi, assim, duplamente vítima.

Sem abandonar o contexto restrito ou local (“Goianobyl”, associação feita pelo poeta com Chernobil), o escritor abraça um contexto mais amplo, fazendo uma séria reflexão sobre a Moderna Tecnologia. Para isto, intertextualiza conhecidas passagens do Apocalipse de João. Associa, por exemplo, o acidente nuclear de Goiânia, ou a liberação da força maligna ao Césio – 137, à nova Besta apocalíptica. Esta “suplanta a Besta de número 666”, que os exegetas afirmam ser Nero no contexto do Apocalipse de João, aquele imperador que desencadeou toda sua fúria persecutória sobre os primeiros cristãos. O poeta goiano, lembrando o poder destrutivo da nova Besta, “cujos chifres [=poder tanto no contexto bíblico quanto no científico metaforizado] se medem em megatons […] e divide os homens/ irremediavelmente: a favor da besta…/ e contra a besta”, afirma que se ela não for detida pelos pacifistas, entre os quais se inclui, não haverá mais retorno e será o caos. Nesse contexto amplo, em que ele conclama os pacifistas, os homens sensatos, os amantes da ecologia, os de todas as crenças a agirem enquanto é tempo, insere-se especialmente aquele do momento histórico mundial – o da corrida nuclear, que poderá desencadear o Apocalipse. Os Estados Unidos e a Rússia, não por acaso, aparecem simbolizados pela Águia e o Urso, como se pode ver neste dístico:

A contagem regressiva se acha em curso.

Combateremos a Águia e o Urso.

Isto nos faz lembrar o grande Cassiano Ricardo, em Jeremias sem chorar, obra que tematiza o homem da era da Astronáutica e da Cibernética, no alvorecer da automação. Esse, que é um mundo de terror e encanto, e que “obsta o pranto” desse outro Jeremias impedido de chorar, e que é, portanto, o contrário do profeta do Velho Testamento. Cassiano (ou a voz lírica) recorre igualmente ao Apocalipse de João, em “Gog e Magog”, fazendo alusão também aos Estados Unidos e à Rússia. Na verdade, em Ezequiel tem-se a figura de Gog, o rei de Magog, mas, no Apocalipse, esses dois nomes se tornam independentes e simbolizam as nações pagãs unidas contra a Igreja (ou os cristãos) no fim dos tempos. Gog e Magog são duas forças antagônicas ao cristianismo. Ambos os poetas, no entanto, realizam um paralelo literário e simbólico, referindo-se às duas potências que detinham, à época, o poder de destruição, de deflagrar uma terceira catástrofe mundial, por meio da bomba atômica. Ninguém escaparia da bomba ou de seus efeitos radioativos. A bomba se transforma em “(b)pomba”, mantendo paradoxalmente um equilíbrio, pelo menos enquanto um não sabe o verdadeiro poderio do outro. “Bomba” torna-se a “pomba atônita da paz”, enquanto cada umdos dois lados sabe que, se puser a mão no controle remoto e disparar primeiro, isso não será a garantia de sua própria sobrevivência. Um acabaria matando o outro.

Num discurso escatológico, desencadeado sob a lembrança do Apocalipse de João, Edir Meirelles prevê, caso a nova Besta não seja detida, quer dizer, se o Césio-137, filho da Era Tecnológica, não for eliminado, quehaverá apenas uma terra arrasada no futuro que obrigará os homens a usar “Roupas, casas, cidades de chumbo”. Estará inaugurada a “era plúmbea”. E mais, em sua visão apocalíptica:

A contaminação plutônica instalará na Terra

O REINO DOS ESCORPIÕES.

Em suas palavras, este será “O mais longo reinado do Universo”. Enfim, restará apenas a terra arrasada e, para habitá-la, os únicos insetos, segundo a ciência, imunes à radioatividade. Esses reinarão absolutos e “não restarão notícias/ de Amor/ sorrisos de Crianças/ versos ou carícias”. A infância perdida é também uma das preocupações da voz lírica em Jeremias sem chorar, de Cassiano Ricardo.

Em toda a primeira seção, de Poemas contaminados, o tema do Césio-137 é reincidente, até mesmo em um poema saudosista, como é o caso de “Alma goiana”. Todavia em alguns deles o tema retorna especialmente forte, entre os quais “Cálice radioativo”, “Besta apocalíptica” e “Radiocriatividade”. No poema “Cálice radioativo”, vê-se a intertextualização das palavras de Cristo no Horto das Oliveiras, procedimento usado por Chico Buarque de Holanda em outro contexto, o do golpe militar, mas igualmente na letra de uma conhecida música engajada do cantor, produzida nos anos de chumbo: outro chumbo. Eis parte da segunda estrofe do poema “Cálice radioativo”, de Edir Meirelles:

Pai!

Afaste de mim este Césio

troquemo-lo pela cicuta.

[…]

De modo mais contundente, o poeta goiano evoca o contexto do Apocalipse no fecho do poema “Réquiem para meu povo”. A atmosfera escatológica aparece vivamente na menção reiterada e cumulativa do número sete. Como se sabe, em suas visões apocalípticas, João foi instado a ouvir uma mensagem, escrevê-la em um livro e enviá-la às sete Igrejas, cujos nomes ele menciona. Ele vê então sete candelabros de ouro e, em meio deles, o Messias em suas funções escatológicas, tendo na mão direita sete estrelas. As sete estrelas representavam os Anjos das sete Igrejas; e os sete candelabros, as sete Igrejas. Naquelas visões proféticas, diante de uma divindade fulgurante e diante do trono, ardiam sete lâmpadas de fogo, ou seja, “os sete espíritos de Deus”; na mão direita da divindade que estava sentada no trono, João vê um livro “escrito por dentro e por fora”, selado com sete selos. João vê, aturdido, o Cordeiro imolado. Ele tinha sete chifres (símbolo de poder) e sete olhos (símbolo do conhecimento) que Cristo possui em plenitude (representada pelo número 7), segundo os exegetas. O próprio Cordeiro vai abrindo um a um os sete selos. Quando abre o sétimo, há “no céu um silêncio durante cerca de meia hora…”. João vê depois outros sete Anjos diante de Deus, e estes recebem sete trombetas. A cada toque de trombetas, sobrevinham catástrofes terrenas ou cósmicas.

Ao toque da sétima trombeta, tocada pelo sétimo anjo, “o mistério de Deus estará consumado”. Mas João verá ainda outro sinal “grande e maravilhoso”: sete Anjos com sete taças, que serão derramadas, consecutivamente, contendo sete pragas, “as últimas, pois com estas o furor de Deus estará consumado”.

O sete escatológico ainda aparece na seção do “Castigo de Babilônia”, no caso, a Roma idólatra, e da “Besta escarlate [Nero], cheia de títulos blasfemos, com sete cabeças [as sete colinas de Roma] e dez chifres [os dez reis vassalos]”. Na subseção “O simbolismo da Besta e da Prostituta”, aparece ainda a menção aos “sete reis” que se referem aos sete imperadores romanos, dos quais o sexto estaria reinando à época e seria Nero, interpretação apoiada em exegetas. Não esgotamos os sete do Apocalipse. Apenas chamamos a atenção para uma possível ligação com o fecho do poema de Edir Meireles.

Sem nenhuma referência ao número atômico do Césio-137 ou do Plutônio (que não agregaria sentido), mas numa direção eminentemente escatológica, reiterativa do número 7 (e observe-se, ao final do poema, o grande silêncio semelhante ao que se ouviu depois de trombeta do sétimo Anjo), assim Edir Meireles encerra o seu poema “Réquiem para meu povo”:

CÉSIO-137 – A besta de número 7

PLUTÔNIO – A grande besta de número 7.777

Quem decifrará este enigma?

– Capacidade para contaminar durante

7.777 milênios.

Por enquanto…

Caixões de chumbo.

Na segunda parte da obra em apreço, denominada “Vida em Alvoroço”, em meio a poemas extensos (jamais como o mencionado epilírico), pois agora os poemas atingem uma página, não mais que uma e meia, encontraremos também poemas minimalistas que prenunciam as futuras “Aldravias” a que Edir Meirelles irá se dedicar. Eis um exemplo em que se veem não somente seis palavras sobrepostas, ao feitio das aldravias, mas cinco versos, sendo cada um deles formado de duas ou três palavras, tal como se vê no poema “Enfim”:

Agora a ilha.

O silêncio

e o albatroz.

Eu e você.

– Enfim sós.

Mais contido ainda que “Religiosidade fanática”, que contabiliza cinco linhas poéticas, temos ainda, na mesma seção, o poema “Corte”, com três versos, lembrando um haicai, sem assumir compromisso com a estrutura deste, a não ser as sugestões preconizadas por Bashô:

Ouço o apito.

Agarro-me ao grito

do silêncio.

Nesta seção, nítida para qualquer leitor é a crítica sociológica ao poder constituído, de que poderia ser um ícone o poema “Desmascarando”, em que o poeta vai retirando as máscaras, uma a uma, até depor as “Máscaras/ do Brasil mascarado/ na máscara da democracia”, expondo nossas mazelas desde a “história da independência/ e libertação dos escravos”, até aquele momento histórico em que o poeta se insere. É grande a preocupação social do poeta, registrada especialmente nos poemas da primeira seção. No entanto, ele se mostra também um pacifista e um “poeta-ecólogo”, expressão sua. E não se pode deixar de notar o substrato existencial presente também em sua obra, tal como o poema “Esfingir”, que encerra a segunda seção.

A terceira e última seção de Poemas contaminados denomina-se “Fragrâncias do tempo”. Não poderia haver título mais apropriado. O que aí se oferece ao leitor são lembranças, memórias, sobretudo da infância e adolescência do poeta na fazenda dos pais e em Pires do Rio-GO, sua terra natal e também terra de Léo Lynce, príncipe dos poetas goianos, a quem presta homenagem no poema “Teteia escarlate”, alusão que Edir faz ao fecho de um soneto do bardo goiano dedicado a Pires do Rio, cujo último terceto fala da “saudade lancinante / à teteia gentil do Corumbá”.

Nessa seção escorre um tempo desconhecido do homem moderno, aquele capaz de abrigar as mais puras confraternizações dos vizinhos, “sentados/ em cadeiras nas calçadas”. O tempo marcado pelo relógio implacável, tormento do homem moderno, ainda inexiste. Dominam os “relógios vivos/ marcando as horas sagradas – o cantar dos galos/ anunciando as madrugadas”. Ou as estações do ano, se não outros expedientes sempre naturais. Chega o poeta a dizer em “Rio do meu sertão”, onde registra as lides que assumia na fazenda.

Saudade do meu torrão

onde o tempo

é sem importância.

Aí afirma que “Viver no sertão”

Ser dono do sol

relógio natural

confidente da noite

recepcionar as estrelas

banhar os pés ao luar

[…].

O fecho da terceira seção é novamente um epilírico e denomina-se “Trenzinho da Goiás” (da Goiás, certamente a companhia), e desta vez com oito páginas e meia. Fiel ao tema, narram-se ou sugerem-se (depende das estrofes) as venturas e aventuras da mocidade. A saga do “Trenzinho” vai desde a sua partida de Pires do Rio à sua chegada em Ipameri, com destino ao 60BC, onde o poeta serviu, quando foi recrutado para o serviço militar. O poema é fortemente onomatopaico, com o aproveitamento da camada fônica das palavras sugerindo a voz “do gigante de ferro”, seus diferentes ritmos, desde o início do movimento de partida, passando pela aceleração até alcançar aquele ritmo verdadeiramente frenético ou vertiginoso e sempre pelo inteligente aproveitamento da linguagem, especialmente disposta. O ritmo poético, na reificação da linguagem, também reduz na parada de alguma cidade e novamente repete-se o ciclo até alcançar, finalmente, a cessação do movimento e da própria aventura.

Nesse poema o autor realiza uma brincadeira séria. Narra uma viagem, com sabor de aventura, criando onomatopeias num jogo com as palavras, substituindo clichês, como o conhecido “café com pão”, por expressões sertanejas tão nossas, como “cachaça não” /café-tão-bão/ café-tão bão/ cachaça não”; Outras vezes, para alcançar o seu objetivo, vai buscar nome de frutas de nosso cerrado ou quintais, como o ariticum, jabuticaba, ainda nome de cidades goianas, tal o caso de Urutaí e até de entidades de nosso folclore, como o Curupira. Tudo se transforma na linguagem do “gigante de ferro”. Há versos inteiros que se resolvem em pura onomatopeia, sem, no entanto, abdicar o poeta da mensagem poética. Tudo é um jorro de saudades, algo como lava incandescente, fragrâncias de um tempo que marcou uma vida indelevelmente. A do poeta.

A segunda obra poética de Edir Meirelles são os seus Poemas telúricos. Verdadeiramente telúricos, são poemas, no seu todo, plenos de erotismo, humor e alegria de viver. Mas não lhe faltam nuances de engajamento, aliás, muitíssimo presente em sua primeira obra; aqui ou ali irrompe um raro substrato existencial; o sempre retorno à infância e até mesmo a metalinguagem e o intertexto, sendo estes dois últimos elementos recorrentes na moderna poesia brasileira.

A obra poética Poemas telúricos divide-se em duas seções. A primeira delas, “Do amor que vale a vida”, surpreendentemente não começa com um poema erótico, verdadeiramente pródigo neste espaço. O poeta abre o livro com o poema “Genealogia”, que fica entre o sagrado e o profano, numa atmosfera envolta em humor. Consegue essa proeza. O poeta vai armando um silogismo, até chegar à conclusão (depois naturalmente das premissas) de que “Sendo irmão de Cristo, também sou Deus”. O penúltimo verso é um reforço da conclusão: “Logo, homens e mulheres são deuses”.

Aqui se tem novamente um intertexto bíblico. Salta à nossa imaginação, imediatamente, o discurso de Paulo no Areópago, em Atenas, tal como se lê em Atos dos Apóstolos (17,23-29), exatamente no momento em que ele, indignado de ver tantos templos dedicados aos ídolos pagãos, assume a palavra, a convite até mesmo de filósofos, os epicureus e estoicos. Aí, de pé, Paulo defende a ideia de que “O Deus que fez o mundo e tudo que nele se encontra, o Senhor do céu e da terra, não habita em templos feitos por mãos humanas. Também não é servido por  mãos de homens, como se tivesse necessidade de alguma coisa”.

Paulo conclui que não estamos longe da divindade, que procuramos atingir às apalpadelas e encontrá-la. Culto como era, ele cita então, depois de inteligente argumentação, um verso do poeta e astrônomo grego chamado Arato, da Cilícia (séc.III,a.C). Afirma Paulo: “Assim, aliás, disseram alguns dos vossos”, referindo-se ao poeta grego. E cita o verso, que é o seguinte: “Pois nós somos também de sua raça”,quer dizer, da raça dos deuses.

Argumenta ainda que, “se somos da raça de Deus, não devemos pensar que a divindade seja semelhante ao ouro, à prata, ou à pedra, esculpida pela arte e o engenho do homem”. E Edir Meirelles encerra o poema “Genealogia” com o seguinte verso: “Salve Cristo, meu irmão panfletário!”

Aqui o poeta pensa muito mais como um judeu tradicional (no início do cristianismo) do que propriamente como um verdadeiro cristão. Na verdade, os judeus esperavam um Messias guerreiro, umrevolucionário para tirar sua terra do domínio estrangeiro. Jesus revelou-se exatamente o contrário, embora tenha sido capaz de revirar as mesas dos cambistas no Templo e de liberar, mesmo sob a forte pressão de escribas fariseus, uma mulher adúltera, que deveria ser fatalmente lapidada, segundo a tradição.

Os exegetas afirmam que vulgarmente se fazia do Messias uma ideia nacionalista e marcial, muito diferente daquela que Jesus queria encarnar. Por isso mesmo Jesus impõe sobre a sua identidade messiânica uma recomendação de silêncio que só depois de sua morte será suspensa. Ele precisava usar de muita prudência, pelo menos nas terras de Israel, a fim de evitar mal-entendidos sobre sua missão. Era comum a recomendação de silêncio quanto aos seus milagres em terras de Israel (como se vê nos evangelhos canônicos), quando o contrário acontecia em terras fora desse domínio.

Em matéria de intertexto, ele pode ser novamente visto, nessa primeira seção, em “Tropeço histórico”, onde subjaz a “pedra no meio do caminho”, de Drummond. Nota-se que o intertexto mais visível aqui é o do bardo português, Fernando Pessoa, esse que se encontra em “Mar salgado ou Sal das Caravelas”. No entanto o poema se resolve noutra direção, de uma forma bem brasileira e pessoal, com laivos de engajamento. Já um poema evocativo da infância, denominado “A volta da criança”, da segunda seção, revela apenas que Edir Meirelles é um leitor de Fernando Pessoa. Trata-se, aqui, de uma apologia ao rio de sua infância, com uma clara alusão ao poema “O rio de minha aldeia”, do poeta português, tal como se pode ver:

Não há lugar mais piscoso

que o rio de minha infância

não acredito que o Tejo

tenha maior importância

terá para todo mundo

para Fernando Pessoa

mas meu riacho ressoa

com belos peixes no fundo

[…]

Registram-se dois poemas metalinguísticos, “Entrefalas” (este, na verdade, fica entre o desejo de entendimento com o semelhante e a metalinguagem) e “Queimando a língua”. Este é de fato metalinguístico, embora permeado de humor, um hormônio fertilizador reincidente na obra do poeta “cariogo”.

Mesmo havendo poemas com vocação para o epos, comparecem pelo menos dois com predisposição para as futuras aldravias. O primeiro, “Essência”, poderia ter assumido a delicadeza do erótico, mas ficou aquém. Um bom exemplo seria o denominado “Empatia”, realizado mais à lembrança de um haicai:

Perfume que me inebria

da mulher amada

isso se chama empatia.

A primeira seção da obra Poemas telúricos, denominada “Do amor que vale a vida”, cumpre o que promete, uma vez que mais de cinquenta por cento dos poemas são eróticos, neste caso “eros” significando amor. De seus poemas de amor há os que se resolvem numa atmosfera de humor quase irreverente, e os eróticos de rara delicadeza, como “Filme revelado” que, de fato, revela o nome da musa maior, Rachel, sua esposa, e o dos filhos Maíra e Mauro. Dentro da mesma delicadeza que convém ao erótico, pode-se ler “Sal da vida”, entre outros facilmente reconhecíveis.

No topo do erótico, para citar três exemplos, estão poemas em que tudo é sugerido mais do que propriamente dito, revelando um poeta maduro. Nessa linha estão “Sal da vida”, “Flor de cacto”, e “Oceanilha”, onde há muito mais sugestão do que tradução literal dos sentimentos de amor.

Existem ainda os poemas permeados de humor, até mesmo meio irreverentes, como “Ode ao prego” e principalmente “Busca do elo”, sobretudo no seu surpreendente fecho:

Fico matusquelo

a busca empaca:

se não acho o elo

caso com macaca.

A vocação de Edir para o social revela-se em seus inúmeros poemas engajados, ou de compromisso social. Nesta seção de que tratamos agora, eu lembraria o bem realizado “Pedras e ferramenta”, onde também tudo é sugerido mais do que dito, embora neste caso fortemente sugerido, pois o poema insere-se em nosso contexto histórico. Na mesma linha vale menção “Começo do fim”, que mostra um poeta realmente maduro.

Finalmente, não faltam os poemas existenciais, como é o caso de “Dor dorida”, que é uma dor “muito precisa/ dói em quem é pisado/ mas não machuca quem pisa”. Mesmo neste, que poderia ser um lídimo existencial do começo ao fim, o poeta acaba, nas duas estrofes finais, por pessoalizar o poema e desviar o curso do que poderia ter sido um solene existencial (que falaria apenas do ser humano em existência), para uma ironia bem pessoal, como é também o caso de “Osmose”.

A segunda parte de Poemas telúricos tem um título homônimo da obra. A seção, de fato, contém “Poemas telúricos”, uma vez que são reminiscências cheias de sentimentos ligados à terra, à infância junto aos entes queridos, ao humano e suas necessidades básicas.  Entram aí até mesmo superstições sertanejas, experimentadas pelo poeta e que se convertem em poemas, às vezes permeados de humor, um traço bem marcante do poeta.

Triplamente telúrico, o poema de abertura é também chamado “Poema telúrico”. Há um mergulho fundo na infância, de forma sugerida ou indexada, um mergulho fundo, igualmente sugerido, nas raízes da cultura nacional, rumo aos antepassados do poeta. E de seu sonho com a “redenção humana”, “no eito da cana-de-açúcar”, come “restos de boias-fria”, acampa “ao lado dos sem-terra” e sente “a chibata da repressão”.  Mas, diferentemente de muitos engajados e mais próximo de Pablo Neruda, diz: “Ainda encontrei tempo para amar/ e perpetuar-me”.

Dois poemas tematizam as superstições, tão conhecidas de um tempo arcaico em Goiás. A primeira é “Oração para todos os males”, em memória a um curandeiro, possivelmente um conhecido ou mesmo amigo da família, durante a infância do poeta. De fato, trata-se de uma oração para todos os males, onde se nota certo sincretismo religioso. O poema subsequente é “Pisadeira”, essa “velha feia e magra” que, “encarapitada no telhado”, ameaçava o sossego do poeta ainda menino. Depois de descrever um ser hediondo, que lhe causava “noites de vigília no leito”, toma-se conhecimento da “infalível poção mágica” que lhe propiciou Sinhá, uma velha amiga da família e o poeta (ou a voz lírica) fica livre daquela Pisadeira “sobre o peito/ [que] sem pena me castigaria”.

O saudosismo da infância livre no sertão, sem as regras restritivas da cidade, aparece especialmente em “Meu pé-de-chão”, “A volta da criança” (“Inspirado em Fernando Pessoa”), “Quebra-potes”, valendo registrar que este poema, parte visual, lembra a saracura do brejo e a sua “voz” onomatopaica. São ainda notáveis retornos à infância “Lua nova, lua velha”, o próprio poema “Infância” (cujo título já define o tema) e “O perfume das campinas”. Neste, vê-se o poeta-menino vasculhando tudo, correndo pelos campos e também

Buscando a saborosa guapeva

e o delicioso ingá

sentindo a plenos pulmões

o cheiro do manacá.

Nesta linha, cita-se finalmente “Preciosidades” em que o poeta recobra um tempo mais recuado na cronologia, tempo que deveria estar até mesmo aquém das lembranças, posto que se trata de “relembrar terno/ aquele doce envolvimento:/ dois anos ao seio materno”.

Há finalmente a registrar, nesta seção, a presença de um epilírico, “Picumãs”, em que a memória recobra uma vastidão de tempo, onde insere a saga de Orozimbo, um lídimo sertanejo, o pai do autor. O poema vale especialmente por preservar hábitos, costumes e a própria faina cotidiana do sertão. Além disto, a ética sertaneja de um homem que soube preservá-la e repassá-la como um verdadeiro legado aos filhos.

Na segunda obra de Edir Meirelles, Poemas telúricos, não faltam poemas de amor, o reiterado retorno à infância, o engajamento, aliás, muitíssimo presente em sua primeira obra; aqui ou ali irrompe um raro substrato existencial e, sobretudo na primeira seção, até mesmo a metalinguagem e o intertexto. Uma espécie de leitimotif na obra do autor é o humor, herdado via modernismo, se não for mesmo genético. Em alguns poemas o humor é mais dissimulado, como em “Truque”, onde o poeta faz um verdadeiro jogo poético com as cartas do baralho, terminado a peça numa direção erótica. Até mesmo em poema de fundo engajado, como “Terra pelada”, que fala da construção de Brasília com alusão ao “formigueiro humano” de Serra Pelada, a atmosfera é de humor. A frase de Dom Bosco, “donde escorrerá leite e mel”, não confere tom hierático ao poema; pelo contrário, fá-lo descambar para a vergonha nacional, concluindo a peça de forma até mesmo irreverente. Puro humor se encontra em “Invenção”. E o tom verdadeiramente malicioso fecha o seu segundo livro, num poema cujo título é “Pintura da saudade”, dedicado ao compatrício Gilberto Mendonça Teles.

Também não falta à segunda seção do livro aqui em epígrafe, ensaios para as aldravias. Não menos do que cinco poemas. “Mourejo”, com leve odor de engajamento (a coragem das mulheres trabalhadoras de dupla jornada); “Flores”, que se resolve numa atmosfera de verdadeiro haicai, até mesmo pelas três linhas poéticas e pela pintura de um quadro da natureza. Ei-lo:

O beija-flor beijando a flor

flores que se beijam

a alada e a perfumada.

Registram-se ainda “Cotidiano”, quase na mesma linha do anterior; o erótico “Sabor da vida” e, finalmente, o ecológico “Mudanças”, com cinco linhas poéticas:

Num lindo riacho

todos jogavam sujeira.

Conscientizaram-se.

Hoje temos peixe n’água

e flores à beira.

Edir acabou mudando, pelo menos por enquanto, radicalmente a forma poética de se expressar. O que era esporádico, a sua tendência para o mínimo, agora é reincidência. Como já disse anteriormente, recebi, há algum tempo, sua obra em parceria com quatro poetas do Rio de Janeiro, Aldravias a cinco vozes. Esta coletânea integra cinco vozes experimentadas no trato poético. São elas, Edir Meirelles, Juçara Valverde, Luiz Gondim, Márcia Barroca e Messody Benoliel. No prefácio do livro, assinado por J.B. Donadon-Leal, o grande teórico do grupo, toma-se conhecimento de que essa nova modalidade de poesia nasce, oficialmente, em dezembro de 2010, na edição 88 do Jornal Aldrava Cultural. Donadon-Leal é, sem dúvida, um dos maiores teóricos do movimento, se não um dos que mais conhecem a sua estética. Vale a pena conferir o texto teórico da lavra desse Doutor em Semiótica pela USP e Pós-doutor em Análise do Discurso – UFMG e Professor de Semiótica da UFOP, denominado “Aldravia – nova forma, nova poesia”. Voltando à coletânia Aldravias a cinco vozes, já na introdução, uma das aldravistas, Messody Benoliel, que assina o artigo, esclarece: “Trata-se de um movimento literário nascido na cidade de Mariana (Minas Gerais) em novembro de 2000, algo novo no mundo da poesia, mas que de modo algum a desmerece”. Vê-se que, mais tarde, o movimento expande (ou migra) para o Rio de Janeiro.

É necessário dizer que essa antologia a cinco mãos ganhou uma edição bilíngue (português-espanhol) em 2012. Depois de a primeira edição (de 2011) haver logrado realizar lançamentos bem sucedidos no Rio de Janeiro, a segunda edição foi lançada no exterior, mais precisamente na Espanha – em Salamanca e Madri. E há notícias de que essa nova forma de poesia vem ganhando adeptos em diversas partes do mundo.

Voltando à primeira edição, Edir Meirelles abre o livro com uma nova modalidade de poesia, pois se trata de uma forma ainda em divulgação no Brasil e, quase se poderia dizer, recém-nascida, se nos esquecermos de que a poesia minimalista não é coisa nova. Nos Estados Unidos, por exemplo, ela alcança seu auge entre a década de 50 e 60.

Não se pode esquecer também de que as aldravias guardam o aroma de uma arte multissecular do Oriente, embora teóricos do movimento neguem isto e têm razão em um sentido de que se falará a seguir.

As aldravias representam arte sem amarras. Não seguem nenhuma regra. Mas isto é também, entre nós, uma conquista do Modernismo brasileiro. As aldravias, por conseguinte, só têm compromisso com a liberdade: constroem-se com o máximo de seis palavras, cada palavra (independentemente de ser um artigo definido ou indefinido ou qualquer utensílio gramatical) forma um verso, sem obrigatoriedade de rima e de contagem silábica, diferentemente do haicai. É uma cápsula lírica, um poema condensadíssimo. Nisto também nos lembra a explosão lírica do haicai.

Mas não nos enganemos. MatsuoBashô praticou uma poesia minimalista muitos séculos antes de a aldravia aportar entre nós. Havia o renga praticado por nobres e cortesãos, cheio de regras complicadas. Mais tarde surgiu o renga popular e humorístico, o renga haicai. Possuía duas seções a que chamaremos de estrofes: a primeira com três (5, 7, 5 sílabas) e a segunda com dois versos (7,7 sílabas), somando 31 sílabas no total. Então surgiu, no Japão, uma modalidade mais reduzida, que se desprendeu do referido renga haicai e denominada simplesmente haicai. Esse tipo de poema é formado de 17 sílabas (e não mais 31), acomodadas em três versos apenas, que apresentam 5, 7 e 5 sílabas, respectivamente. De duas, passou-se para uma única seção.

Foi Bashô que, elevando mais tarde a linguagem popular à categoria do literário e desprezando, como outros mestres antes dele, os dois últimos versos, notabilizou-se no cultivo desse poema, no qual se deve dizer o máximo com o mínimo de palavras. Tudo é dito em três linhas poéticas: uma explosão lírica.

Nota-se que as aldravias possuem a mesma poderosa carga explosiva dos haicais. E sabemos que a busca dessas construções líricas condensadas inspirou, no início do século passado, Ezra Pound, Apollinaire e James Joyce. No Brasil, anteriormente aos movimentos de vanguarda, houve experiências próximas ao haicai até no Parnasianismo, com Guilherme de Almeida, embora essa forma só vai-se notabilizar a partir do Concretismo. Houve experiências em outros países, como é o caso de Portugal e Espanha e, neste país, sobretudo com Antonio Machado.

Mas pode-se observar que, mesmo que seja apenas intuitivamente, há, em parte das aldravias – e falo sobretudo daquelas de Edir Meirelles – a atmosfera de humor, um traço de consagrados mestres do haicai, absorvido pelo precursores do Modernismo que aconselhavam “a extirpação das glândulas lacrimais”, numa alusão ao Romantismo tardio entre nós. Diferentemente dos haicais, pois trata-se de outra modalidade lírica, nas aldravias de Edir Meirelles predominam os poemas eróticos. Há, eventualmente, os metalinguísticos, um ou outro existencial. E até mesmo os saudosistas.

Eis dois exemplos, entre tantos outros de aldravias de Edir, permeados de ironia. O primeiro:

esperei

no

porto

fiquei

vendo

navio

O segundo

madrugada

retorno

ao

lar…

marido

exemplar?

Dos poemas eróticos, Edir Meirelles vai do mais delicado, apenas sugerido, ao mais explicito. Um bom exemplo, do primeiro caso, é o seguinte:

Ela sonha

enquanto

borda

nossas

fronhas

Este poema lembra um de Léo Lynce (conterrâneo de Edir Meirelles, ambos nascido em Pires do Rio), o introdutor do Modernismo em Goiás, um poema de sua obra Ontem, de 1928. Trata-se de “Bordando”, de levíssima ironia, e que foi lido na conferência “Poesia Moderníssima do Brasil”, em 1930, proferida na Faculdade de Letras de Coimbra pelo professor da Cadeira de Estudos Brasileiros, Dr. Manoel de Souza Pinto, e apontado como uma das expressões de nossa modernidade brasileira.

Um erótico mais declarado encontra-se no seguinte poema:

tuas

curvas

luxuriantes

são

meus

atalhos

Ainda este exemplo:

Contornar

teus

seios

eis

meus

anseios

Como amostragem de poemas metalinguísticos, poderíamos lembrar aquele em que Edir poetiza sobre a própria essencialidade da aldravia:

liberdade

sopra

no

papel

poemas

mel

Mais um exemplo de poema metalinguístico. Este, aliás, se contrapõe ao poema anterior, uma vez que mesmo o espaço em branco, que nele se vê, e que passou a significar muito no poema concreto, via Mallarmé, não tem sentido para o espaço de absoluta liberdade reclamado pela aldravia. E muito menos a transpiração pregada por Horácio e praticada à risca pelos Parnasianos. São elementos não reclamados pelos aldravistas, mas comparecem no poema que se segue:

lágrimas

e

transpiração

argamassas

do

poeta

Há, como se disse, raros poemas existenciais, saudosistas e até de engajamento na defesa da natureza: “a/ natureza/ chora/ enquanto/ motosserra/ esfola”. Mas não passa despercebido um poema próximo do haicai, que visualiza exatamente a natureza:

Encanto

do

arrebol:

nascer

do

sol

Em 1994, o poeta Carlos Fernando Magalhães publicou em Goiás um livro denominado Quarks, que significa a menor parte da matéria, termo ligado à física quântica. Esse poeta foi um dos instauradores da Práxis em Goiás, acompanhou todo o experimentalismo e dele se beneficiou sem se ater a ele. Nessa obra, o reconhecido poeta e ficcionista criou poemas condensadíssimos, verdadeiras fulgurações líricas.

Ana Mafalda Leite, num estudo denominado “O haiku, uma vez mais”, afirma que “assim como não há quase nenhum poeta que não tenha escrito um soneto, também são poucos os que não esboçaram seu haiku mais ou menos ocidentalizado”. E aqui ela se refere a todas as experiências que atomizaram a linguagem poética, chegando até mesmo ao one-verse-poem.

Nesse sentido, podemos nos lembrar da tautologia da americana Gertrud Stein – “uma rosa é uma rosa é uma rosa”. Mas mesmo em sua formulação minimalística, não se pode negar que exista aí uma rica ambiguidade. Menor do que este, podemos nos lembrar do poeta italiano Giuseppe Ungaretti (que chegou a lecionar na USP), com o seu imenso e mínimo poema, “Cielo e mare”, que se resolve em dois versos, de uma palavra cada um:

m‘illumino

d’immenso

Todos os conhecedores ou praticantes da poética de vanguarda no passado ou que conviveram com a fase experimentalista, para alguns, considerada a última fase do Modernismo brasileiro, tomaram conhecimento da estética do haicai por meio dos poetas concretistas, se não diretamente com as experiências de Apollinaire ou de Ezra Pound. Mallarmé foi um dos inspiradores do Concretismo com a sua teoria do espaço em branco da página.

Falando das poéticas de vanguarda no Brasil, que trabalharam no sentido de reduzir a linguagem, Cassiano Ricardo afirma que “não se quer minimizar o mínimo; antes verificar até onde irá o ‘máximo do mínimo’. O poema minuto, o haicai […] o one-verse-poem não deixarão de existir e se justificar”. Por isso, cremos nós, sempre haverá no Brasil experiências próximas ao haicai sem, no entanto, postular para si o status que ele tem. E, se essas experiências forem verdadeiramente literárias, sempre se justificarão. Assim como se justificam as aldravias de poetas como Edir Meireles, que sabe atomizar a poesia, transformá-la numa cápsula poética de tal força e densidade lírica capazes de conquistar o leitor e rendê-lo diante de seu verdadeiro esplendor e beleza estética.

REFERÊNCIAS BIBIOGRÁFICAS

Bíblia Sagrada. Apocalipse. Bíblia de Jerusalém: Novo Testamento. São Paulo: Edições Paulinas, 1980.

Donadon-Leal, J. B. Aldravia – nova forma, nova poesia. Jornal Aldrava Cultural, n. 88, de dezembro de 2010.

DENÓFRIO, Darcy França. Hidrografia lírica de Goiás, Goiânia: Editora da UFG, 1996. Coleção Hórus.

FELÍCIO, Brasigóis. O rosto da memória. Goiânia: Edições Consorciadas UBE-GO/ Editora Kelps, 1991.

FELÍCIO, Brasigóis. Árias do silêncio. Goiânia: Gráfica de Goiás – CERNE, 1992.

FELÍCIO, Brasigóis. O Tempo dos homens sem rosto. São Paulo: Estação Liberdade, 1993.

JORGE, Miguel. Pão cozido debaixo de brasa. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1997.

MEIRELLES, Edir. Poemas contaminados. Rio de Janeiro: Litteris Editora Ltda., 1993.

MEIRELLES, Edir. Poemas telúricos. Rio de Janeiro: edição do autor, 2003.

MEIRELLES, Edir et alii. Aldravias a cinco vozes. PROJETO UBE-RJ POESIA. Goiânia, Kelps, 2011.

MEIRELLES, Edir et alii. Aldabas a cinco voces. Convênio UBE-RJ Poesia. Goiânia: Kelps, 2011.

RICARDO, Cassiano. Jeremias-sem-chorar. Rio de Janeiro: José Olympio, 1964; 2.  ed. rev. 1968.

RICARDO, Cassiano. Algumas reflexões sobre a poética de vanguarda. Rio de Janeiro: José Olympio, 1964.

RICARDO, Cassiano. 22 e a poesia de hoje. São Paulo: Revista Invenção, n.1, 1o. trimestre de 1962.

ROSA, Heitor. Nós de Goiânia. O Popular, 08/11/87.

ROSA, Heitor. Carta ao leitor. O Popular, 22/5/92.

SILVA, Vera Tietzmann. 50 anos de Letras na UFG: um projeto em construção – Memória e história. Goiânia: Cânone Editorial, 2012.

STAIGER, Emil. Conceitos fundamentais da poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1997.

TELES, José Mendonça. A demolição da Santa Casa. O Popular, 05/01/85. In: Em defesa de Goiânia, 2. ed. Goiânia: Kelps, 2011.

TELES, José Mendonça. O crime da Santa Casa. O Popular, 23/02/86. In: Em defesa de Goiânia, 2 ed. Goiânia: Kelps, 2011.

TELES, José Mendonça. Não à discriminação. O Popular, 06/12/87. In: Em defesa de Goiânia, 2 ed. Goiânia: Kelps, 2011.

UNGARETTI, Giuseppe. Letture italiane per stranieri. Stampato in Italia. Off. Graf. Veronesi dell’editore Arnoldo Mondadori – VII – 1964.

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LOUVOR A EDIR MEIRELLES

– Antonio Olinto

Dos grandes problemas brasileiros do momento, sou de opinião de que o mais grave e mais urgente é o da marginalização da comunidade negra no país. A festa da abolição foi magnífica. Discursos, passeatas, gritos, vivas, páginas e mais páginas da imprensa exaltando o ato. José do Patrocínio Filho coroado como herói nacional, tudo no melhor estilo brasileiro. Mas os escravos que então deixavam de o ser, foram esquecidos, jogados para um lado, como se não existissem. Não se lhes deu o mínimo de atendimento a fim de que pudessem ingressar em escolas e faculdades. Nada se lhes ensinou. Dizer que a situação dos anos que se seguiram a 1888 continua a mesma é uma verdade que nenhum otimista poderá contestar. É por isso que todo o esforço para melhorar esta inaceitável situação merece o mais entusiasmado apoio.

O livro de Edir Meirelles, “O feiticeiro da Vila”, está neste caso. Sua luta é, do começo ao fim da narrativa em favor do reconhecimento da importância dessa população excluída. Os grandes nomes da literatura brasileira, herdeiros do sangue africano, elevaram nossa cultura ao mais alto nível de criação. Se aceitarmos que Machado de Assis é o nosso maior escritor, Lima Barreto o nosso maior romancista e Cruz e Souza o nosso maior poeta, não estaremos longe de uma verdade que deve ser motivo de honra para o Brasil.

No caso de Lima Barreto, essa verdade levou Oliveira Lima a classificar um de seus personagens como o Quixote brasileiro. Candidato à Academia Brasileira de Letras, teve apenas um voto. Vale a pena que se lembre sempre haver esse voto sido dado por João Ribeiro, um dos ápices do pensamento brasileiro.

O livro de Edir Meirelles percorre os caminhos da presença negra no Brasil, a força de sua cultura, a beleza de sua música, a variedade espantosa de sua passagem por todos os escaninhos da inventividade.

Os heróis brasileiros (Zumbi, João Cândido, Rebouças) estão presentes em nossa memória. Quando, em agosto de 2001, o desaparecimento de Jorge Amado chocou o país, nele fizemos questão de lembrar o muito que o grande escritor representava, por haver tirado de sua imaginação um grande número de personagens negros, com seus orixás hoje tornados brasileiros.

Louvemos Edir Meirelles por ter escrito este livro e por lembrar que um hino da Escola de Samba (o de Vila Isabel) seja “Sonho de um sonho”, inspirado em poema de Carlos Drummond de Andrade. A matéria ficcional de Meirelles apresenta páginas que merecem destaque e menção, como a da morte da porta estandarte Lucinha e a de Leo, que a matara.

“O feitiço da Vila” é um instrumento de luta de que devemos todos tomar conhecimento.

Antonio Olinto

Da Academia Brasileira de Letras

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✍  RELENDO EDIR MEIRELLES

– Stella Leonardos

 

Voltando a Edir e “O Feiticeiro da Vila”. Releio Edir e ouço uma coisa bonita, muito bonita, chamada “vissungos”. São cantos de trabalho do africano, cantos que serviram, nos Estados Unidos, de inspiração para o “blues”, o “spiritual” e o jazz. E a mim me parece que o livro de Edir tem vissungos no fundo. Não apenas sambas ou marcha rancho, bateria, samba enredo, porta estandarte ou mestre sala. Tem Eduardo, Marília, Marcela, todos os acontecidos e por acontecer: corajosos, sofridos, sinceros, formando até, sem dúvida alguma, o que os cubanos chamam de “literatura testemunho”.

Tem mais: o livro de Edir resiste a releitura, ultrapassa sempre a expectativa e se insere na moderna literatura brasileira. Notadamente entre a melhor romancística carioca. Exemplo de talento. E criatividade.

Rio, 8/V/09.

Stella Leonardos

Presidente da Academia Carioca de Letras

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MADEIRA DE DAR EM DOIDO
Romance ou Poema? ( ¹)

– Leo L. Barrow (*)

Cada vez que vejo na capa deste livro de Edir Meirelles a palavra “romance” duvido. Não será Madeira de dar em doido poesia, um poema feito, e bem feito, da paisagem goiana e da solidariedade humana, que forma uma parte íntegra desta paisagem, e parece ser produto natural dela? Tudo na primeira parte, lá em Palmelo e logo na fazenda Taturana, é tão densamente poético e todos tão bons, tão positivos na sua solidariedade humana que cheira a poesia, a um tipo de regionalismo idealizado. É a parte melhor do romance, bem feito mesmo, e talvez mais importante ainda; esta parte justifica muito naturalmente o caráter de Quinzote, e o guia, na vida depois, mantendo-o sempre ao lado dos bons e justos que trabalham.

A educação de Quinzote foi afortunada e até caprichada. Em Palmelo e na Cabaça de Mel, aprende rápido o básico. Com Naná e com Corália, desenvolve o seu lado carinhoso e romântico e, com seu pai lá na fazenda aprende e faz todos os trabalhos. Lá, vira homem.

Eu, que nasci no estado do Novo México, EUA,  briguei com meu pai e saí de casa quando tinha 16 anos e, depois, o que me valia sempre e ainda me vale é que desde os dez anos fazia o trabalho de um homem, lidando com cavalos, tratores, gado e tudo, e não tinha medo dos dias longos e dos trabalhos duros.

Assim com Quinzote. Chega em Goiânia, lhe dão uma oportunidade e progride. Quinzote vira Madeira e de lei e se integra nos acontecimentos históricos e na luta pela justiça. Sua participação nesta luta não é de líder, é mais bem dum soldado-companheiro inteligente e prestativo.

A sorte deste rapaz é tanta, o idílio do poema tão perfeito, que o leitor fica assustado, esperando o golpe traiçoeiro. “Juntos atingem o clímax, no arco-íris do prazer.” O poema chega a seu clímax ideal quando os pais de Quinzote participam no assentamento no Vale do Paraíso. Mas lá sujou. Os fazendeiros não gostam da idéia e mandam os jagunços. Ana Madeira morre heroicamente e com revólver na mão, e Quinzote é preso pelos meganhas e torturado. Mas é confortado na cela por Mãe Naná e salvado por suas duas amigas: Corália e Telma.

Sinto a solidariedade neste poema, como a sinto nos tempos da depressão econômica dos anos trinta, lá no campo do Novo México. Senti o mesmo em Cuba, em minhas visitas em 1994 e em 1996. Nestes tempos duros a gente se une e se ajuda mais. Quando assisti a uma reunião de escritores da UNEAC (União de Escritores e Artistas Cubanos), em Santiago, só tinha duas garrafas de vinho para uns sete homens, mas o bate papo literário foi quente e inteligente e durou mais de três horas. E também quando fiquei preso no hotel por cinco dias, todos no hotel, gerente, garçonetes, camaristas e cozinheiros me apoiavam e ajudavam a fazer minha prisão, que eles sabiam ligeiramente injusta, bem prazenteira. Houve festa cada noite no bar. O hotel MES (Ministério da Educação Superior) botava a comida e eu comprava o rum. Voltarei a esse pequeno hotel pra sentir esta mesma solidariedade que eu acho a base principal da dignidade humana.

Madeira de dar em doido, este livro de Edir Meirelles, é um Germinal bem brasileiro, idealizado e com batucada mais positiva? JanaíNaná diz que “são sementes no solo calcinado da adversidade, à espera do momento fecundo.” Parece que, na França, o momento chegou e hoje os operários vivem melhor, mas no Brasil que eu vejo e sinto, este momento fecundo ainda está custando a chegar.

( ¹) Publicado na Tribuna do Escritor (SEERJ)

(*) Professor of Spanish and Portuguese. University of Arizona – Tucson, Arizona.

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“Edir Meirelles expõe a nu a chaga viva e rubra da nossa miséria desassistida, da nossa falência social, dos nossos desacertos com relação ao homem do campo”.

Clair de Mattos
– Revista do Jornal do Comércio de 04 a 10/08/1996.
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Miguel Jorge

Em sua primeira narrativa longa, Edir Meirelles coloca-nos à volta também como protagonistas, de uma forma ou de outra, de suas pesquisas, suas experiências verbais e de vida, de sua criatividade. Pois tudo se compõe e se completa no corpo desse romance, Madeira de Dar em Doido, inclusive a angústia, o anonimato, a tortura e a morte, que são também personagens dessa mesma história.

– Caderno Prosa & Verso do Jornal Top Cultural de 12/11/1996.

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Carta de  Moysés G. Paciornik

Prezado EDIR

Você deu-me três satisfações. Primeira por sua amiga e carinhosa cartinha. Segunda, acompanhar o nascimento da “Aurora do Nascimento do Vale Formoso”. Prende a atenção do começo ao fim. Não há nada a corrigir, nem acrescentar. A história está muito boa. Terceira satisfação, acompanhar com divertida curiosidade, as histórinhas do velho Tirbúrcio. Simpatizei com ele, virou meu amigo.

Gostosa sua maneira de escrever.

Abraço Cordial.
Moysés G. Paciornik

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Fragmento da carta de Augusta Faro

Seus personagens possuem vida, vibram e personalidades que tudo tem a ver com nossa realidade de ontem, hoje e sempre. A condição humana e os ambientes que a cercam, marcam muito pela verossimilhança na dose certa. Aliás, você é muito mestre em conseguir a harmonia em temas marcadamente humanos.

Escritora goiana.

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Carta de Carlos Alberto Santos Abel

Edir, com este romance, ombreia-se com nossos grandes escritores, artistas, grandes ficcionistas da década de 30, Raquel de Queirós, Jorge Amado, José Lins do Rego e com o maior de todos, o nosso querido Graciliano Ramos.

Prof. de Literatura Brasileira.

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Carta de Nelson Werneck Sodré

O romance Madeira de Dar em Doido, narrativa que retrata um dos dramas com que convive o povo brasileiro. A sua história, fluente e límpida como sempre, está calcada na triste realidade do campo em nosso país.

Do seu admirador Nelson Werneck Sodré

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Carta  de
Jose Afrânio Moreira Duarte

Prezado Edir Meirelles,

“Madeira de dar em doido” foi para mim agradável revelação de um bom romancista, maduro e seguro, talentoso,em suma. Você honra as gloriosas tradições literárias de Goiás.

Parabéns e felicidades.

Belo Horizonte, 7/04/1997.
– Membro da Academia Mineira de Letras.

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contato
EDIR MEIRELLES

edirmeirelles@uol.com.br

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 construção & edição site  by *Graça Carpes ______________________________________________________________

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3 respostas para Fortuna Crítica

  1. Meu caro:
    Está cada vez mais compreensível minha admiração por aquele jovem há 53 anos atrás.

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